sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Parada

Imagem: Sr Google
Saiu apressada de casa. Tinha essa mania chata de pensar que sempre ia ter tempo pra fazer as coisas. Mas nunca tinha. Saiu apressada porque não conseguiu acordar com o despertador que tocou às 5:30. E às 5:35. E às 5:40. Eram 5:55 e ela continuava sonhando que já estava toda arrumada pegando o metrô. Devia ter desconfiado ali que era sonho, já que sua cidade não possuía metrô. 

O relógio marcava 5:59 quando um chute da irmã, que dormia ao lado, a despertou. Finalmente, diga-se de passagem. Olhos pesados ainda, com os resquícios do sonho na cabeça, ela correu desesperadamente por todos os cômodos da casa procurando as peças de roupa que rapidamente decidiu usar para enfrentar mais um dia de trabalho. 

Nesse meio instante, voltou a olhar para o relógio e constatou: "puta merda, tô atrasada". Eram 6:07. Tinha que pegar a primeira condução as 6:15. "Em 3 minutos eu tomo banho e me arrumo... Chego no ponto às 6:14, certeza!", pensou, inocentemente. Mal ela sabia do tratado do tempo, que insiste em passar seus minutos de forma mais rápida quando se está atrasado, como uma forma de vingança pelos milhares de minutos perdidos todos os dias na frente da tv, do pc ou no celular ou pensando naquele cara que sempre diz que vai, mas nunca chega, ou naquele outro que nem sabe da sua existência. 

Seus 3 minutos passaram como 3 segundos. Não conseguiu achar o sapato. Nem a agenda com as anotações importantes pro dia. 
Saiu atrasada e sem comer. Perdeu o ônibus das 6:15, óbvio. Não porque ela quis, mas porque o motorista implicou com ela. "Não parou de birra, de sacanagem! Duvido que se eu fosse mais gostosa, ele pararia", devaneou. 
Esperou calmamente o outro ônibus que passaria nos próximos 10 minutos. Ou que pelo menos deveria passar. Bocejava a cada 30 segundos. Lacrimejava. Ria sozinha lembrando-se do sonho que estava tendo há pouco tempo atrás. 
Não percebeu que ele estava lá. A olhava como uma criança olha para o presente de natal que acabara de ganhar, louco para descobrir o que se passava por detrás daqueles olhos meio borrados do lápis de olho por causa de tanto bocejo. Pensava o que poderia se esconder por trás daquela cardigã e daquele jeans meio surrado.
Quando ela percebeu a presença dele já era tarde demais. O ônibus das 6:25 já estava se aproximando, às 6:40. Ele se aproximou. Ela sorriu. O ônibus chegou. Ele só teve tempo de falar algo que ela não entendeu direito. "O quê?", perguntou com um meio sorriso, curiosa. "O celular! Passa senão eu te xuxo!"

Mariana Pedrosa

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