segunda-feira, 14 de julho de 2014

Só 22

Por anos e anos da minha vida eu imaginei como seria ser grande. Não em estatura, porque isso eu nunca fui, mas grande como as pessoas grandes eram. Como meus pais já eram antes mesmo de eu nascer, como eu achei que nunca realmente seria. A idade e seu avanço me pareciam muito surreais. O tempo, na verdade, tinha seus limites praticamente desconhecidos pra mim, como é com qualquer criança que divide seus dias entre escola, desenho, brincar e dormir.

 Os limites são muito maleáveis. As horas são muito subjetivas e o tempo sempre, sempre, sempre corre mais do que deveria ou menos do que era o esperado. Mas nunca na medida certa, e acho que esse é o real motivo das crianças quererem tanto crescer.

Sou o oposto do Peter Pan e cresci achando que ser adulta deveria ser um sonho em todos os sentidos. Hoje, nem taantos anos depois, me lembro rindo e até com saudade das bolhinhas coloridas que enfeitavam os balões dos meus pensamentos.

Crescer é uma droga, todo mundo sabe disso. A verdade é que quando somos pequenos, nossos problemas só se equivalem ao nosso tamanho se vistos de fora. Porque pra quem passa por isso, um dente de leite que cai-não-cai só pode ser um indício do apocalipse eminente. Claro que é. E é assim exatamente porque não sabemos o que nos aguarda.

 O que nos espera no fim da esquina são anos incontáveis que, ao mesmo tempo, parecem eternos e passam muito ligeiros. Mal vemos a vida passar, na verdade, porque estamos sempre preocupados demais com o antes e o depois.

Envelheci e nem notei. Meus documentos ficaram amarelados, meu rosto mudou, a cor do meu cabelo mudou tantas vezes que nem me lembro e nunca mais voltará a ser cor de cobre polido, como dizia muito meu avô.

 Não gostava de nata, agora não tomo café sem isso. Detestava sorvete de tapioca, hoje é o que eu mais gosto. Adorava ler e isso não mudou nem um pouquinho. Não ando mais de bicicleta e nem brinco na lama. E honestamente, nem lembro mais quando foi que mudei tanto assim.

 Só sei que como muitas pessoas, fui forçada a amadurecer depressa demais. Deixar os anos de infância e os dias de sol pra trás pareceu um alívio, hoje só me parece uma memória distante. Mais do que eu gostaria, inclusive.

 Envelhecer é estar sempre lembrando, sempre querendo uma coisa difícil demais pra acontecer e só nos damos conta que ficamos velhos quando bate a vontade de ser criança de novo.

 Se eu contasse isso pra mim mesma a uns 17 anos, certeza que eu riria da moça estranha de cabelo curto, com olheiras demais. Acharia ela feia, chata e desinteressante até ela me chamar pra sentar na janela e ler um livro, coisa da qual sempre gostei.

 Envelhecer é estar sempre meio só, meio distante. É se dar conta de que nada é totalmente errado ou certo e que tudo é uma questão de escolhas. Escolhas que não queremos fazer, do mesmo jeito que ninguém nunca gostava de ir ao dentista ou de tomar vacina, muito menos de conhecer os parentes de outro estado que ficam apertando nossas bochechas – aos parentes de outros estados: isso não tem a menor graça pra quem é beliscado.

Mas o estranho é que envelhecer tem graça sim, e não é de todo mal, nem de todo bom. Estou começando a me dar conta de que envelhecer talvez seja exatamente entender isso: meio que entender esse eterno meio-termo que é estar pelos meios da vida, mesmo tendo só meio que 22.


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