Por anos e
anos da minha vida eu imaginei como seria ser grande. Não em estatura, porque
isso eu nunca fui, mas grande como as pessoas grandes eram. Como meus pais já
eram antes mesmo de eu nascer, como eu achei que nunca realmente seria. A idade
e seu avanço me pareciam muito surreais. O tempo, na verdade, tinha seus
limites praticamente desconhecidos pra mim, como é com qualquer criança que
divide seus dias entre escola, desenho, brincar e dormir.
Os limites são muito maleáveis. As horas são
muito subjetivas e o tempo sempre, sempre, sempre corre mais do que deveria ou
menos do que era o esperado. Mas nunca na medida certa, e acho que esse é o
real motivo das crianças quererem tanto crescer.
Sou o oposto
do Peter Pan e cresci achando que ser adulta deveria ser um sonho em todos os
sentidos. Hoje, nem taantos anos depois, me lembro rindo e até com saudade das
bolhinhas coloridas que enfeitavam os balões dos meus pensamentos.
Crescer é uma
droga, todo mundo sabe disso. A verdade é que quando somos pequenos, nossos
problemas só se equivalem ao nosso tamanho se vistos de fora. Porque pra quem
passa por isso, um dente de leite que cai-não-cai só pode ser um indício do
apocalipse eminente. Claro que é. E é assim exatamente porque não sabemos o que
nos aguarda.
O que nos espera no fim da esquina são anos
incontáveis que, ao mesmo tempo, parecem eternos e passam muito ligeiros. Mal
vemos a vida passar, na verdade, porque estamos sempre preocupados demais com o
antes e o depois.
Envelheci e
nem notei. Meus documentos ficaram amarelados, meu rosto mudou, a cor do meu
cabelo mudou tantas vezes que nem me lembro e nunca mais voltará a ser cor de
cobre polido, como dizia muito meu avô.
Não gostava de nata, agora não tomo café sem
isso. Detestava sorvete de tapioca, hoje é o que eu mais gosto. Adorava ler e
isso não mudou nem um pouquinho. Não ando mais de bicicleta e nem brinco na
lama. E honestamente, nem lembro mais quando foi que mudei tanto assim.
Só sei que como muitas pessoas, fui forçada a
amadurecer depressa demais. Deixar os anos de infância e os dias de sol pra
trás pareceu um alívio, hoje só me parece uma memória distante. Mais do que eu
gostaria, inclusive.
Envelhecer é estar sempre lembrando, sempre
querendo uma coisa difícil demais pra acontecer e só nos damos conta que
ficamos velhos quando bate a vontade de ser criança de novo.
Se eu contasse isso pra mim mesma a uns 17
anos, certeza que eu riria da moça estranha de cabelo curto, com olheiras
demais. Acharia ela feia, chata e desinteressante até ela me chamar pra sentar
na janela e ler um livro, coisa da qual sempre gostei.
Envelhecer é estar sempre meio só, meio
distante. É se dar conta de que nada é totalmente errado ou certo e que tudo é
uma questão de escolhas. Escolhas que não queremos fazer, do mesmo jeito que
ninguém nunca gostava de ir ao dentista ou de tomar vacina, muito menos de
conhecer os parentes de outro estado que ficam apertando nossas bochechas – aos
parentes de outros estados: isso não tem a menor graça pra quem é beliscado.
Mas o estranho
é que envelhecer tem graça sim, e não é de todo mal, nem de todo bom. Estou
começando a me dar conta de que envelhecer talvez seja exatamente entender isso:
meio que entender esse eterno meio-termo que é estar pelos meios da vida, mesmo
tendo só meio que 22.
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