A gente vive enganando. Uns mais, outros menos, uns a si
mesmos, outros ao mundo, mas no fundo, o que nós queremos de verdade é nos
esconder. Nascemos e nos tornamos gente, pagando por isso um preço muito caro,
que a maioria decide ignorar. Mas a alguns não sobra alternativa alguma, senão
olhar no espelho e não fazer ideia nenhuma de quem seja a pessoa que encara de
volta. Por esses eu sinto muito. Pra mim a ignorância é uma dádiva de ouro, só
não menor que a capacidade de conseguir se ignorar.
A questão é que
somos o que construímos. E assim como uma casa ou uma outra coisa qualquer,
nossa arquitetura engendrada entre músculos estriados, músculos lisos, catarro,
meleca, amor e costelas nunca tende a ser minimalista. Nós somos um exagero
amontoado de nós mesmos, nos retroalimentando como cupins da nossa própria cara
de pau, construindo uma imagem que acreditamos ser nosso reflexo.
A imagem não é bem
uma máscara. A imagem é uma pele e, de uma forma bastante reptídica, se desgruda
de tempos em tempos, dando lugar a uma cara nova e a um novo corte de cabelo.
Embora tenha a ver com o tempo, não é dos anos que isso tudo depende. Não mais
do que da nossa própria resolução de escolher quem queremos ser de ontem em
diante. Tudo, afinal, é uma escolha. Tudo, menos escolher. Disso, meu caro,
você e eu jamais seremos capazes de fugir. De fugir talvez não, mas ignorar é
uma arte. Como eu vinha dizendo, a ignorância é quase uma virtude. Mas escolher
não ver é escolher ser menor. Então nos sobra apenas a dura tarefa de abrir os
olhos e os ouvidos.
O fato amargo por
trás disso tudo é que nossa imagem, chapiscada e rebocada com tanto esmero, não
nos protege ou esconde do mundo. Ela guarda nossa alma daquilo que não queremos
saber. Porque no fundo, todos nós somos escrotos. E ninguém vive seus anos pra
se descobrir ruim. Mas é vida é dessas, o que a gente esconde ela nos devolve.
A vida é escrota. Aliás, as pessoas são escrotas. Aliás,
eu sou.
Se largar da
própria imagem não é bem escolher uma nova e voltar a ser confortável. Largar
de mão a própria imagem é pagar pelo que não diz, pelas escolhas que não faz e
pelo que preferiu não ver. E é aqui que o laço aperta o bode, porque é dessa
escolha que não há esquiva. Então nos resta o reboco. O asfalto ruim tapando
qualquer buraco. Vamos polindo nossa cara com peroba e bril. Vamos nos
reinventando e, de tanto procurar, só nos resta nos perder. A vida é escrota.
Mesmo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário