A vida na madrugada é
solitária. E é solitária de um jeito bastante diferente e específico. Não é a
mesma coisa, por exemplo, que aquela sensação enjoada que sentimos em meio a
uma multidão de ilustres desconhecidos. A solidão da madrugada é a solidão de
cada um.
Se você já prestou alguma
real atenção às horas que antecedem cada manhã, deve entender bastante bem a
que me refiro. Me refiro a um tipo de solidão que se alimenta do azul marinho
do céu ainda estrelado. Me refiro à solidão que deu vida àquela poesia de
Fernando Pessoa, aquela, chamada Insônia. Me perdoe se não lembro qual nome o
Fernando usou pra assinar essa, é que, como você nota, dormi bastante mal na
noite passada.
Você passa a entender essa
tal solidão insone quando por um motivo ou outro está em casa, acordado.
Enquanto você não dorme um mundo inteiro acontece, dentro e fora de você. O
mundo subitamente se aquieta, se cala como se fosse dormir. Mas assim como o
sono que a cada noite nos prega os olhos, o sono do mundo também é só uma
ilusão.
Naquelas horas estranhas
entre hoje e amanhã, diferentes sons e pássaros noitívagos dividem espaço com
os gatos que, a essa hora, já são todos pardos. Nessas horas indefinidas,
passamos a ter uma clareza insana na nossa forma de ver o mundo e a nós mesmos.
Essa clareza súbita e descarada, penso eu, só pode nascer do silêncio, do céu clareando e
da solidão disso tudo.
Há algo de muito
esclarecedor em tudo o que pensamos enquanto seu lobo não vem. Basta estarmos realmente abertos pra notar. Cada
passo que damos, mornos de cama, em direção à cozinha, 1... 2... 3... 10...,
cada passo é uma sinfonia de silêncios distintos. E é aí, no silêncio, que mora
o perigo. Porque na solidão calada do ‘semiescuro’, só podemos encontrar a nós
mesmos.
Nossa alma é como uma
vizinha incômoda que joga lixo na nossa porta. Quem quer se encontrar com ela? Certamente
nenhum de nós, muito embora seja mais bonito e polido negarmos até a morte o
nosso desinteresse por quem de fato somos.
Há algo de muito solitário
em cada madrugada. Uma solidão compartilhada, no entanto. Compartilhada por
todos os seres do mundo, até com os que dormem. Sejam esses dormentes do corpo
ou da mente, cada um carrega sua própria cruz, que pesa muito mais depois das
4.
INSÔNIA
Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…
Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

Um comentário:
Nas solidões caladas da noite nos defrontamos com as nossas angústias e lutamos para que no dia seguinte estejamos em pé.
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