segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Excesso de Bagagem



Estou cansada. Um cansaço de uma vida inteira. Cansada de estar cansada. Cansei tanto que corro o sério risco de deitar no sofá e deixar de existir por pura desistência. Desafiado não é meu não, pode jogar.

Seguimos a vida acumulando nossos segredos num pequeno fardo bem amarrado às nossas costas. No começo, ele é só um apoio cervical, bem útil nas cadeiras ruins do transporte público. Disso ele passa a ser um pequeno travesseiro, pronto pra qualquer soneca num canto mais quieto em que se possa estar. Mas assim como um tumor, nossa bagagem de segredos segue crescendo, silenciosa, roubando nossas forças como um pequeno parasita bem nutrido, contra o qual não há nenhum licor de cacau chavier que seja eficiente.

Nossa pequena trouxa segue nos acompanhando. Cada um faz dela o que quer. Uns a embalam num tecido cômodo e resistente, outros num marrom sem cor, amaciado pela idade... outros a transformam num divertido amarrotado de cores vibrantes, com estampas de elefantes bailarinos sob um céu de glitter. Essa sou eu.

Seguindo lado a lado com meus segredos, em dias de chuva ou sol, numa viagem divertida ou no mais entediante dia de trabalho, pude aprender que um fato sobre nosso saquinho de segredos é que por mais bonitinho que o tornemos ou quanto nos esforcemos pra mantê-lo limpinho e bem nutrido, nossa trouxa de segredos começa subitamente a pesar. O que uma vez havia sido um pequeno conforto particular ou um silêncio apropriado pra nos esconder de uma ou outra confusão se torna o fato de nossas colunas estarem tão tortas e nossas pernas, sempre cansadas.

Vamos nos enchendo, enchendo, enchendo até vazar.

Depois, desajeitados, tentamos recolocar todos os farrapos de volta na sua trouxinha tão particular. Mas como qualquer coisa no universo, os restos de nós se submetem à regra universal das embalagens: uma vez que você desembala, não haverá jamais uma forma de recolocar tudo no lugar exatamente da mesma forma. O que antes era um pacotinho arrumado, agora é uma massa disforme e retorcida que insistimos em chamar de nossa vida.

Por fim, me canso só de pensar que esse fardo é eterno, continuará a ser arrastado por nossas costas irritadas enquanto o mundo for mundo e nós formos nós mesmos. Cabe a cada um o que fazer da sua mala. Ignorar é uma opção. Ficar cansado é uma consequência inevitável.


Quanto a mim, sigo colorindo os elefantes do meu tecido enquanto der. Assim, cansada o quanto for, ainda restará o conforto de deitar aconchegada num pequeno pedaço de arco-íris. A esse conforto eu chamo: ter amigos. 

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