Estou cansada. Um cansaço de uma vida inteira. Cansada de
estar cansada. Cansei tanto que corro o sério risco de deitar no sofá e deixar
de existir por pura desistência. Desafiado não é meu não, pode jogar.
Seguimos a vida acumulando nossos segredos num pequeno fardo
bem amarrado às nossas costas. No começo, ele é só um apoio cervical, bem útil
nas cadeiras ruins do transporte público. Disso ele passa a ser um pequeno
travesseiro, pronto pra qualquer soneca num canto mais quieto em que se possa
estar. Mas assim como um tumor, nossa bagagem de segredos segue crescendo,
silenciosa, roubando nossas forças como um pequeno parasita bem nutrido, contra
o qual não há nenhum licor de cacau chavier que seja eficiente.
Nossa pequena trouxa segue nos acompanhando. Cada um faz
dela o que quer. Uns a embalam num tecido cômodo e resistente, outros num
marrom sem cor, amaciado pela idade... outros a transformam num divertido
amarrotado de cores vibrantes, com estampas de elefantes bailarinos sob um céu
de glitter. Essa sou eu.
Seguindo lado a lado com meus segredos, em dias de chuva ou
sol, numa viagem divertida ou no mais entediante dia de trabalho, pude aprender
que um fato sobre nosso saquinho de segredos é que por mais bonitinho que o
tornemos ou quanto nos esforcemos pra mantê-lo limpinho e bem nutrido, nossa
trouxa de segredos começa subitamente a pesar. O que uma vez havia sido um
pequeno conforto particular ou um silêncio apropriado pra nos esconder de uma
ou outra confusão se torna o fato de nossas colunas estarem tão tortas e nossas
pernas, sempre cansadas.
Vamos nos enchendo, enchendo, enchendo até vazar.
Depois, desajeitados, tentamos recolocar todos os farrapos
de volta na sua trouxinha tão particular. Mas como qualquer coisa no universo,
os restos de nós se submetem à regra universal das embalagens: uma vez que você
desembala, não haverá jamais uma forma de recolocar tudo no lugar exatamente da
mesma forma. O que antes era um pacotinho arrumado, agora é uma massa disforme
e retorcida que insistimos em chamar de nossa vida.
Por fim, me canso só de pensar que esse fardo é eterno,
continuará a ser arrastado por nossas costas irritadas enquanto o mundo for
mundo e nós formos nós mesmos. Cabe a cada um o que fazer da sua mala. Ignorar
é uma opção. Ficar cansado é uma consequência inevitável.
Quanto a mim, sigo colorindo os elefantes do meu tecido
enquanto der. Assim, cansada o quanto for, ainda restará o conforto de deitar
aconchegada num pequeno pedaço de arco-íris. A esse conforto eu chamo: ter
amigos.

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