sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pra não dizer que não falei de saudades.



Era quase a hora do adeus. Acordada há mais de 24h ela tentava, em vão, conter as lágrimas. Seu corpo já demonstrava os sinais de um dia sem sono, sem fome e de sentimentos antagônicos que afloravam a cada instante. Por um lado, tudo o que estava acontecendo era para que os dois pudessem ter um futuro brilhante, num futuro próximo. Por outro, ela pensava de forma quase obsessiva "mas será que tudo isso valerá a pena?", e novamente uma lágrima caia. 
Sentada, olhar distante. Apenas observava aquela cena. Na sua cabeça, mil e duas coisas se passavam em uma velocidade extraordinária para a capacidade humana. “Isso está acontecendo mesmo, meu Deus?”, se perguntava de forma retórica, pois sabia exatamente que tinha chegado a hora. Aquilo, de fato, estava acontecendo.
Sua cabeça estava uma bagunça, tudo parecia fora do lugar. Tudo estava fora do lugar. Olhava para o relógio na esperança de que os minutos demorassem a passar.
O relógio marcava 1:29 AM. Aquele era seu último minuto perto, antes de todos os inúmeros que teria que passar longe. Aquele minuto, como num paradoxo, passou tão devagar que ela poderia sentir como se fosse um filme em câmera lenta. Ele abraçou toda sua família, as amigas barulhentas da irmã, seu amigo. Ela ficou lá. Olhos distantes, vermelhos, pedindo a Deus para que fosse sonho. E se não fosse, pedia a Ele que o trouxesse de volta o mais rápido possível. Se não tão rápido, pelo menos igual. Pelo menos com aquele mesmo jeito simples de moleque que ela se apaixonou ha quase uma década atrás. 
Ela foi a última. Estava tímida, escondida por detrás do choro dos familiares. Nas mãos, apenas seu coração. Tentava disfarçar, esboçava um meio sorriso. Não se conteve. E chorou. Ele se aproximou, os olhos vermelhos e a boca trêmula mostravam o esforço que fazia para que ela ficasse calma. Olhou-a, sussurrou algo em seu ouvido que a fez chorar. Choro sofrido, de dor. Ele a beijou carinhosamente nos lábios. E em um sinal de respeito maior, beijou-a na testa. 
Ele e ela. O resto pareceu não existir. As mãos se soltaram quando uma voz anasalada chamou pelos passageiros da nave 1138. Ela ficou. Ele foi. Com ela, a lembrança do “Eu te amo” sussurrado no ouvido. Nas mãos dele, a mala, a saudade e o coração dela.


Mariana Pedrosa

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