Procurei os créditos desta imagem mas não encontrei, infelizmente
Ela estava bem ali, sentada.
Na mão direita um livro velho, bolsa largada no colo. Na mão
esquerda um queixo cansado e na cabeça um mundo inteiro fora do lugar.
Era uma figura da passagem, nem queria ser notada. Tivera um
dia ruim e cheio de más impressões. “Atropelada por um ônibus”, era o que dizia
pra si mesma. Se sentia atropelada por um ônibus gigantesco e cheio de gente
sem fones de ouvido, escutando músicas terríveis.
Na mesa, à sua frente, um café esquecido, não estava bom. Só
o calor da proximidade é que a confortava, e a graça de evitar o desgaste
desnecessário de calorias pra levantar e abandonar o café em outro lugar.
Preferia abandonar a si mesma, ali na mesa, o café ruim seria só mais uma
figura, parte da imagem meio torta que ela transmitia, com seu cabelo levemente
bagunçado atrás da orelha. Havia um menino na mesa à sua frente.
As letras do livro dançavam salsa na sua cabeça, que parecia
ter sido atingida por algo semelhante ao prédio de uma igreja – a dor fica a
critério da sua imaginação - ela mal entendia o que havia ali escrito. O livro,
lido mil vezes, era seu preferido. Mas naquele dia, em especial, não fazia
sentido, nada fazia sentido. Nem livro, nem café, nem cabelo, nem sapato, nem
vida.
Levantou os olhos da página amarela que já não lia. Demasiadamente
cansada, se sentiu subitamente... ouviu, sem querer, que o menino conversava
com sua mãe. A criança segurava algo entre os dedos roliços e perguntou “de
onde vem o papel?” Ela sentiu vontade de rir. Tomou um gole de café – que,
aliás, já estava frio e não mais a confortava. Continuava ruim – e, segurando a
xícara, se apaixonou pela cena. O olhar da criança pareceu carregar todo o
sentido do mundo, tudo o que ela não tinha. Seus problemas eram ridículos! Ela
sabia de onde vinha o papel. Teve vontade de se aproximar, de explicar como o
papel era fabricado e de mostrar seu próprio papel favorito, ali, naquele
aglutinado de páginas amarelas. Teve vontade de se sentir feliz, mas tudo o que fez foi limpar os
óculos no vestido colorido. Abriu seu livro de novo, reencontrou seus amigos de
sempre, fazendo as coisas que sempre a encantaram. Seus amigos no livro estavam
vivendo uma aventura. Ela só estava tomando um café ruim.
O menino e sua mãe foram embora. O momento ínfimo de
quietude que ela tivera também. Ela continuou, pedaço do lugar, lendo seu livro
velho, tomando seu café ruim, desistindo do seu cabelo e, naquele dia,
continuou vivendo como se não vivesse.

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