Não
tenho a menor ideia do que escrever.
Olho
pra folha em branco esperando que ela me devolva palavras, mas tudo o que
consigo é um olhar inexpressivos do espaço entre as pautas. As ideias, ao
contrário, se amontoam na ponta da minha língua, na ponta dos meus dedos, todas
e nenhuma. Nada sai e nada entra, igual a ônibus lotado, quando os passageiros
não conseguem sair porque tem outros entrando e não conseguem entrar porque tem
outros saindo.
A
folha continua em branco, olho pro relógio... se passaram dez minutos. E aí,
nada ainda? Nada...
Poxa,
mas eu tinha que escrever. Não, não tinha. Mas eu queria, queria mesmo... é,
nada ainda.
Pouco
a pouco vou entendendo que preencho o nada da folha com o tempo que passei
pensando em branco, as ideias, ainda amontoadas, começam a pensar que talvez
fosse mais inteligente formar uma fila e, quem sabe, distribuir algumas senhas.
As ideias se olham, as ideias se criticam, a ideia número 8 detestou o cabelo
daquela vaca da ideia número 3, mas elas não conversarão a respeito. Não haverá
um texto sobre isso, não haverá briga nenhuma.
O
tempo vai passando e as ideias vão cansando, as pernas começam a doer e a
barriga começa a roncar. O que a gente ia fazer mesmo? Acho que coisa nenhuma.
A impaciência vai chegando, o aperreio vai piorando e as ideias, que a essa
altura trocam cotoveladas e palavras feias começam, enfim, a parecer um pouco
lógicas.
Mas
aí, bem nesse momento, eu olho pro relógio e decido parar. As ideias se olham,
traídas, desperdiçadas, guardadas, mofadas. E, como era de se esperar, não
fazem nada. Voltam ao seu lugar.
Já
passa das 19h, estou com fome.
Ainda
não faço a menor ideia do que escrever.

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