terça-feira, 18 de março de 2014

Ideias em Branco

Não tenho a menor ideia do que escrever.

Olho pra folha em branco esperando que ela me devolva palavras, mas tudo o que consigo é um olhar inexpressivos do espaço entre as pautas. As ideias, ao contrário, se amontoam na ponta da minha língua, na ponta dos meus dedos, todas e nenhuma. Nada sai e nada entra, igual a ônibus lotado, quando os passageiros não conseguem sair porque tem outros entrando e não conseguem entrar porque tem outros saindo.

A folha continua em branco, olho pro relógio... se passaram dez minutos. E aí, nada ainda? Nada...

Poxa, mas eu tinha que escrever. Não, não tinha. Mas eu queria, queria mesmo... é, nada ainda.

Pouco a pouco vou entendendo que preencho o nada da folha com o tempo que passei pensando em branco, as ideias, ainda amontoadas, começam a pensar que talvez fosse mais inteligente formar uma fila e, quem sabe, distribuir algumas senhas. As ideias se olham, as ideias se criticam, a ideia número 8 detestou o cabelo daquela vaca da ideia número 3, mas elas não conversarão a respeito. Não haverá um texto sobre isso, não haverá briga nenhuma.

O tempo vai passando e as ideias vão cansando, as pernas começam a doer e a barriga começa a roncar. O que a gente ia fazer mesmo? Acho que coisa nenhuma. A impaciência vai chegando, o aperreio vai piorando e as ideias, que a essa altura trocam cotoveladas e palavras feias começam, enfim, a parecer um pouco lógicas.

Mas aí, bem nesse momento, eu olho pro relógio e decido parar. As ideias se olham, traídas, desperdiçadas, guardadas, mofadas. E, como era de se esperar, não fazem nada. Voltam ao seu lugar.

Já passa das 19h, estou com fome.


Ainda não faço a menor ideia do que escrever.  

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