segunda-feira, 24 de março de 2014

Born and Raised

Eu nasci em um lugar complicado. Minha família é singular e irreparável. 
Complicado, eu digo, não por conflitos, mas pela forma de reparar no mundo e de conviver com ele.
Eu, indecisa, levo um mundo onde a indecência não poderia fazer parte do meu vocabulário.- Não poderia. Por isso, família é complicada. Hoje eu sou igualzinha meu pai, ontem tava cuspida e escarrada mamãe. Amanhã posso cometer uma irresponsabilidade de adolescente tipo o meu irmão, mas no final do dia eu sou só eu e um resultado de mundos completamente distintos. 
Semana passada eu vivi muita emoção boa e ruim. E, eu acho, que foi pouco tempo pra ter essa alucinação toda. Essas emoções que me afogam e me arrebatam. 
Vida, além de vadia, é efêmera. E eu tenho pelo menos uma ideia do que eu tô fazendo dela. Vida, além de escrota, é passageira. E dessa má criação a gente não pode fazer nada. Só aceitar.
Aceitar é bem mais difícil do que costumava ser mas eu já aceitei tanta condição pra chegar aqui que não permito ter tanta aceitação negativa por conta dos outros. Deu pra me entender?
Vida passa rápido demais. E ela chora, ou melhor, eu choro pela falta dela. E sofro porque a morte eu não aprendi a aceitar. 
A vida é uma indecência que muita gente quer conhecer. As faces dela que eu já vi e provei me tornam a pessoa cada vez menos como eu era, como projetava ser e cada vez mais como gosto e deveria ser.
Nascer e crescer são singulares, assim como minha família é, assim como o meu mundo tá começando a se tornar. 
Os amigos são preciosidades que o tempo (outro vadio) leva, deixa ou traz de volta. Eu sempre fiz de tudo pra manter por perto mas ninguém é amigo sozinho. Minhas raízes estão em minha fé e nas pessoas bem próximas. Elas estão lá, sempre estão, embora a sede e a vontade de surpreender o meu mundo indecente seja maior que a vontade de ficar. Por hora, tenho um caminho. Tenho família e amigos e o prazer de dizer a importância de cada um deles pra mim. No mais, to expondo que tô pronta pro que vier, dando a cara a tapa pro que acredito ser o melhor. E a qualquer dia desses eu vou nascer e crescer novamente e eu não posso saber quando ou como. 
Beijos da preta.

sexta-feira, 21 de março de 2014

EVA - Enfrentadores de vida anônimos.


Um dia de cada vez. 

Como em qualquer grupo de apoio, esse é o nosso lema. Nós, que, anonimamente, tentamos com todas as nossas forças, enfrentar a vida, todos os dias, a cada hora, em todos os segundos.
Eu sou uma EVA profissional. Há 22, quase 23 anos. Costumava ter pressa na vida, querer saber como o dia ia terminar antes dele ao menos começar. Acelerava o filme pra ver o final só pra não sentir o veneno da ansiedade corroer minhas entranhas. Cansei de ver o dia passar em vão por esperar demais dele, mas ficar apenas deitada no sofá, sofrendo pelo pôr do sol que se aproximava. Empurrei muitos dias, semanas e meses com a barriga, sempre achando que o próximo seria melhor, que o próximo iria trazer novidades, que no próximo eu iria conquistar o mundo. Acontece que o mundo está ai pra ser conquistado: um dia de cada vez. Uma passo de cada vez. Não o contrário. Não é o mundo que precisa te conquistar. 
Há aqueles destemidos profissionais que já conseguem correr na vida, dando passos largos e seguros. Mas nós não. Não é por mal, não é preguiça. É só uma ansiedade descalculada que impede que o futuro seja algo conquistado aos poucos, aliás, que nos impede de viver o presente.
Um dia de cada vez. É a cada vez. E é nisso de ser aos poucos que a vida te convida pra dançar. E é nisso de ser a cada vez que você aceita a dança e se diverte com a vida, por mais vadia que ela seja.

Só mais um dia.

terça-feira, 18 de março de 2014

Ideias em Branco

Não tenho a menor ideia do que escrever.

Olho pra folha em branco esperando que ela me devolva palavras, mas tudo o que consigo é um olhar inexpressivos do espaço entre as pautas. As ideias, ao contrário, se amontoam na ponta da minha língua, na ponta dos meus dedos, todas e nenhuma. Nada sai e nada entra, igual a ônibus lotado, quando os passageiros não conseguem sair porque tem outros entrando e não conseguem entrar porque tem outros saindo.

A folha continua em branco, olho pro relógio... se passaram dez minutos. E aí, nada ainda? Nada...

Poxa, mas eu tinha que escrever. Não, não tinha. Mas eu queria, queria mesmo... é, nada ainda.

Pouco a pouco vou entendendo que preencho o nada da folha com o tempo que passei pensando em branco, as ideias, ainda amontoadas, começam a pensar que talvez fosse mais inteligente formar uma fila e, quem sabe, distribuir algumas senhas. As ideias se olham, as ideias se criticam, a ideia número 8 detestou o cabelo daquela vaca da ideia número 3, mas elas não conversarão a respeito. Não haverá um texto sobre isso, não haverá briga nenhuma.

O tempo vai passando e as ideias vão cansando, as pernas começam a doer e a barriga começa a roncar. O que a gente ia fazer mesmo? Acho que coisa nenhuma. A impaciência vai chegando, o aperreio vai piorando e as ideias, que a essa altura trocam cotoveladas e palavras feias começam, enfim, a parecer um pouco lógicas.

Mas aí, bem nesse momento, eu olho pro relógio e decido parar. As ideias se olham, traídas, desperdiçadas, guardadas, mofadas. E, como era de se esperar, não fazem nada. Voltam ao seu lugar.

Já passa das 19h, estou com fome.


Ainda não faço a menor ideia do que escrever.  

sexta-feira, 14 de março de 2014

Quando duas barrinhas rosas aparecem.


Imagem: sr. Google


As mãos tremiam tanto segurando aquela pequena barra de plástico que ela simplesmente não conteve o fluxo das lágrimas. Grande parte de si alegrava-se ao ver aqueles dois tracinhos cor de rosa, que para ela piscavam como neon, mas logo um balde de água fria caia sobre o sonho e a despertava para o choque da realidade. 
Como dois traços poderiam mudar a vida de uma pessoa daquela forma? Como e por quê o frescor e prazer que a juventude nos apresenta pode ser tão deliciosamente venenoso a ponto de nos fazer esquecer das consequências e nos ligar única e exclusivamente ao momento? "Tá feita a merda", ela pensava compulsivamente, enquanto, sem perceber, fazia movimentos estereotipados, sentada com as mãos apoiadas no sanitário. "Não é como eu sonhei! Será que vai dar certo? O que eu faço, Senhor?" Perguntas, dúvidas e mais dúvidas pairavam sob aquela cabeça. Nunca uma mente humana fora capaz de produzir tantos pensamentos interrogativos sobre o futuro quanto a dela naquela segunda feira chuvosa. Pensou nos pais, nos avós, nos sogros, pensou em todo sermão que iria levar até o fim da vida. Seu último pensamento do dia foi em como ela contaria aquilo pra mãe. Pior que contar a mãe seria a mãe contar ao pai. O pai ao avô e o avô a avó. Uma linha muito muito tênue de nervos aflorados. O peso que sentia nas costas devido à culpa ainda era muito superior ao que carregava em seu ventre. A alegria da gestação ainda estava escondida por trás do pano negro do medo. Medo, tristeza, decepção, talvez não consigo mesma, mas com a imagem que a família tinha de boa moça, naqueles moldes bem tradicionais. E isso a entristeceu a ponto que pensar em fazer uma besteira.
Olhou novamente para as duas barrinhas. aquelas duas barrinhas significavam mais que gotas de tinta rosa. Aquelas duas barrinhas significavam uma vida. E isso a fez sorrir. A fez pensar que aqueles 9 meses tensos se transformariam em um amor incondicional e em tias babonas. Em choros e fraudas na madrugada. Em consultas periódicas e banhos de sol. Em amar tanto uma pessoa a ponto de querer dar sua vida por ela. E isso a fez sorrir e pensar "e isso é tudo o que eu sempre quis".
E simplesmente, respirou. Aliviada. Teve certeza que, passando a tempestade, a bonança traria amigas ficando grávidas juntas, uma família acolhedora e um bebê muito, muito amado.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Crítica ao Padrão Internacional de Apaixonados.

Alô Brasil! Alô mundo! Minhas sinceras desculpas pelo sumiço. Eu tava sem texto. Aliás, texto eu tinha, mas nenhum que falasse o que eu queria.
Mas cá estou, com minha "Crítica ao Padrão Internacional de Apaixonados". Esse texto tava pela metade há algum tempo, hoje, dado as intempéries que tive esses dias, consegui terminá-lo e veio a calhar. 
Dizer que eu espero que alguém se identifique é egoísmo, mas eu espero sim. Porque esse mundo de estranheza é amargo. Preciso descobrir que não estou só. hahahhahahha
Então, leiam e me digam.
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Nunca fui dessas pessoas que ama fácil. Desde que me lembro, o amor tem um gosto estranho. Amar alguém, isso é estranho. Amo, amo várias poucas pessoas espalhadas por ai, mas esse amor do qual vos falo, bom, esse eu só senti uma vez.
Lógico que como uma boa desapaixonada, eu demorei pra admitir quando ele chegou, mas enfim me rendi, e amei. Amei com toda a idiotice típica que o amor traz. Sendo boba, ingênua, leve, feliz... Tudo se encaixava, tudo era perfeito. E acabou.
Isso já faz tanto tempo que quase nem lembro mais. E hoje confabulo teorias sobre esse tal amor.
 Hoje ele é uma bobagem, um mal necessário, uma alienação da qual até o maior dos rebeldes anseia. Hoje ele se tornou ainda mais difícil pra mim, como se eu tivesse desaprendido como se ama alguém, como se rende ao olhar caloroso ou ao afago seguro. Hoje eu não sei mais aproximar, eu afasto.
Nunca consegui amar do jeito que a maioria ama, talvez por isso não tenha sido eterno o pouco do amor que senti um dia.
Eu amo com os pés no chão. Com orgulho, altivez, simplicidade, birras, sem escândalo, modestamente. Eu não me esqueço de mim, nem do que eu tenho a fazer, quero estar com meus amigos e família e se eu não liguei, não é porque eu não me importo, eu só esqueci mesmo.
Eu amo com músicas compartilhadas, trechos das mesmas enviadas a qualquer hora que der vontade e pode ser sem sentido algum, mas subliminarmente irá carregar o meu “eu te amo”.
Eu amo com minhas séries chatas que eu insistentemente digo ao outro que assista, elas são minhas, se eu compartilho, é porque eu no mínimo amo a pessoa.
Eu amo com minhas implicâncias, com meu orgulho, com minha briga desnecessária. Amo falando mal da roupa ou do cabelo. Amo xingando, apelidando, dizendo NÃO quando precisa.
O meu jeito de amar envolve riscos para que o outro cresça. O risco de uma mágoa nascer e durar e durar pelo simples motivo de ter jogado verdades na cara. Eu não amo com uma parte de mim apenas. Eu amo com cada centímetro das minhas qualidades e defeitos, eu amo sendo eu. Por isso tanto peso e pouca sutileza.
Eu esperei que as pessoas compreendessem isso. Eu esperei até que eu mudasse o meu estranho jeito de amar, porque era insuportável tanta cobrança para que eu me encaixasse nos Padrões Internacionais dos Apaixonados. Até descobrir que não tenho que ser igual ao outro.
O amor não tem regra. Ele é de uma forma diferente para cada um de nós. Se a sua forma é parecida com a da maioria, parabéns. Bom pra você que vai ser descoberto ao primeiro sinal e não vai tropeçar tanto até ter coragem de confessar com todas as letras.
Bom pra você que não vai ter o seu amor questionado, que não vai precisar se esforçar para dar satisfações que você não quer dar, porque sim, está estampado na sua testa que você ama.
Se seu amor é reconhecido pelo Padrão Internacional meu amigo, parabéns. Sortudo você.
Agora se o seu jeito, como o meu, te faz andar mais só do que junto, se o seu jeito aparenta querer distancia e não proximidade... Se você não se sente obrigado a esquecer de você pelo outro dando como justificativa o amor, então meu grande amigo solitário, vem cá, toma um café e vamos afogar nossa solidão.
Não pense que é um caminho fácil, por isso os “amadores” assegurados no Padrão Internacional dos Apaixonados, deviam tomar um pouco mais de cuidado antes de emitir sua sentença contra nós. Já nos basta nossos calos.
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E ai? O que acharam desse?
Espero que tenham gostado.
Estava com saudades queridos. 
Uma ótima Quinta e término de semana.
Beijos carinhosos desta que sim, vos ama.

Enezita Vieira.





sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre o medo de rugas.

Ibagens: Sr, Google

Quase todo o Brasil alega que o ano só começa, de fato, depois do Carnaval. E eis que o carnaval acabou ontem. O.ano começa, então, meados de março. O que torna dois meses perdidos no espaço, já que 2013 terminou em dezembro e 2014 só começa 10 de março. 
Há alguns pouquíssimos anos atrás, isso não seria motivo de preocupação alguma para mim. Ano após ano. A vida era só um amontoado de dias em que ora eu me divertia, ora não. Hoje, mal começou março e eu já temo o abril. O por quê disso é simples: completo mais uma primavera neste mês. E de uns tempos pra cá tem se tornado realmente sombrio o passar dos anos. Mais vadia que a vida, só o tempo. O tempo passa e te traz rugas. Físicas mesmos. A sensação de estar envelhecendo e não ter poder sobre isso é devastador. 
Dia desses eu voltava para casa e fiquei em pé ao lado de uma senhora de seus quase 60 anos. Mãos enrugadas, cabelos brancos, olhar caído. Entrei em pânico. Pensei que daqui há alguns poucos e rápidos anos, serei eu. Serei eu a figura envelhecida que apavorará alguma jovem formanda em crise de identidade. Juro que quase chorei. 
Pensei em como deve ser triste se olhar no espelho e não ver mais o aquilo da juventude. Sei lá, o frescor, a liberdade, o brilho e todos esses outros clichês que a gente ouve nos filmes. Isso de poder fazer qualquqer coisa do mundo, sobretudo sonhar; aquela sensação de que o mundo é seu e que nada de ruim acontecerá se eu resolver pular de paraquedas ou, simplesmente, resolver ser uma acionista da bolsa de valores.
Só que o medo maior, conclui depois de muito martelar sobre, não é de enrugar a face, nem de tremer as mãos. É de me olhar no espelho e ver que cheguei a velhice em vão. De que não aproveitei os tais dias do frescor, brilho e liberdade. De olhar pra trás e ver apenas meios caminhos percorridos, ou até descaminhos. De ter levado muito a sério o que era graça e ter levado na graça tudo que foi sério. O medo de envelhecer é de ser uma daquelas tiazinhas ranzinzas por sempre ter deixado pra depois o que era de agora e ter perdido de forna consciente muitas oportunidades. 
Porque se você sente que tá vivendo, acho que nem o espelho é capaz de te provar que você está com rugas...