sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sobre quando o espelho não reflete você.

Um dia, em uma viela qualquer sem poesia, me dei de frente comigo mesma. Sei que era eu pois eu reconheço essa imagem bizarra e acabada refletida em qualquer canto, mas , como num sonho, ou num filme do Almodóvar, não era eu. O corpo, robusto e desengonçado continuava o mesmo, mas os olhos estavam disformes. Parei. Era muito difícil pra mim aceitar a mudança nos meus olhos. Os olhos eram meus, eu os cultivei com amor e incerteza durante toda essa longa vida de um pouquinho mais que duas décadas. Meus olhos mudaram e eu sou o tipo de pessoa pouco tolerável a mudanças. Desde que me entendo por gente. E percebendo a mudança dos olhos, cai na real que o reflexo como um todo também não era mais o mesmo. Havia alguém ali refletido e aquele alguém era eu. Eu sabia disso pelas leis da física. Só tinha eu e aquilo era um espelho. Mas eu não mais reconheci. Ainda gritei, esperneie querendo a minha imagem de volta, querendo meus olhos outra vez, por mais que houvesse sofrimento e confusões na maioria das coisas que eles viam.

A sensação de olhar aquela imagem e não se reconhecer é extremamente pavorosa. É como se você caísse num abismo, tentando desesperadamente se agarrar em algo para amenizar a queda. Você se depara com um ser estranho convivendo dentro de você. É preciso se adaptar. Mas, pior que isso, é preciso esperar a adaptação do outro.

O resultado disso ainda não sei. Só sei que olho no espelho com mais frequência durante o dia, numa tentativa desesperada de me acostumar comigo mesma de novo...

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