quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre tempos de outrora

E a vida era assim. Há pouco tempo, na verdade. Meados de janeiro e a sensação deliciosamente ansiosa batia às beiradas do estômago. Era dia de voltar às aulas. Mochila arrumada, roupas separadas, despertador programado para me acordar num tempo exato para que a ansiedade não corroesse todas as minhas unhas.
Era dia de alegria. Dia de reencontrar amigos e professores amigos.  Era dia de frio na barriga e de dizer "poxa, queria estar em casa dormindo", com um sorriso no canto dos lábios indicando que era uma clara mentira, pois eu estava mais que feliz por voltar pr'aquele lugar.
Lembro com carinho de adorar o cheiro de livro novo. De rir das piadocas do diretor da escola que nem ele mesmo sabia que estava fazendo. Da aula inaugural onde nos eram apresentados a equipe pedagógica e professores.  Da vibração, como se estivéssemos no Maracanã lotado, quando o nome dos nossos mestres favoritos eram chamados no microfone pela diretora.
Me julguem, eu voltava feliz mesmo! Me julguem, eu sentia frio na barriga!
Me julguem, mas eu amei aquele lugar. Amei construir uma parte bonita da minha história e do meu caráter ali. Sem demagogias.
Foram tempos bons. Foram tempos em que a vida era realmente simples, e eu sabia disso. Minhas amigas sabiam disso. E éramos muito felizes.
Existia uma inocência, uma pureza nos sentimentos, que a malícia (ou eu poderia dizer que é só a própria realidade mesmo) da vida me faz não mais lembrar do por quê daquelas meninas correrem no recreio pra se encontrar num canto da escola e rir loucamente sobre uma calça rasgada, ou do por quê  daquelas meninas falarem "desculpa, tá?!?" quando tinha um mínimo de atenção de um dos seus preferidos.
Cara, como a vida era simples. E de tudo o que tenho saudade, é essa simplicidade que mais me faz falta. Pra quê tantas teorias sobre felicidade, amor e saudades? Pra quê dificultar os relacionamentos? Por que não é mais tão gostoso se apaixonar platonicamente e escrever cartinhas que nunca serão entregues, ou decorar horários só pra sentir o coração bater mais forte? Por que não é mais aceitável fazer uma roda e cantar "atirei o pau no gato" em frente ao supermercado na despedida de uma professora querida?
Sinto falta da inocência. De olhar meus mestres como heróis. Eles foram meus mais queridos heróis.
A garota de quinta elucubrou sobre saudade. Eu sinto saudade delas. Daquela época. Éramos 9. Éramos felizes andando de ônibus e falando com estranhos no Centro Histórico de São Luís. Éramos felizes tomando sorvete e assistindo filme deitadas no chão da sala de casa. Éramos extremamente felizes colocando os pés em um balde de água fria pra estudar madrugada adentro.
Hoje somos felizes. Felicidade diferente, tenho que admitir, nem melhor, nem pior. Moldadas pelo mundo, pela idade. Somos felizes casadas, juntadas, formadas. Felicidade com mãos, olhos, coração batendo e choro. A única diferença é que, em tempos de outrora, felicidade era, de fato, só questão de ser...

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