terça-feira, 29 de outubro de 2013

Auto-narrativa Onisciente

Sentada num pedaço de mundo que chamava de seu, ela olhava o teto em busca de solução. Mas solução pra quê, afinal? Sentia sua vida tão terrivelmente líquida e incerta que mal se atrevia a buscar suas perguntas antes de supor suas respostas. Virava o rosto, de um lado pro outro, o teto branco a encarava, vazio, denunciando escandalosamente o seu grotesco estado mental.

Nesse dia, especificamente, ela tentou fazer várias coisas. De passear com o cachorro a organizar a coleção de CD’s da sala de estar. Pegou o telefone, discou alguns números... mas desligou antes do primeiro toque todas as vezes. Apelou para os afazeres domésticos mais corriqueiros.

No fim das contas, já havia levantado cansada. E cansada mesmo, seguiu impune pela rotina de todo dia, como o fazem todas as pessoas da terra. Ela pensou: “Devo ser como todo mundo”.

Ah, como se sentia incompleta. Um perfeito retrato da sua conta bancária, diria o narrador onisciente – diria isso porque a conta bancaria daquela garota andava em franco declínio, pra não dizer no vazio absoluto.

Depois de deitar-se pela milésima vez num dia só, resolveu levantar, tomar outro banho, vestir uma roupa legal. Mas levantada, como estava, olhou no espelho e já quase não reconheceu a garota de olhos pesados e negros que lhe devolvia o reflexo. Esperou que a garota do espelho lhe presenteasse com um enigma digno do mundo da tal de Sofia “Eu sou você!”. Mas nada aconteceu, juro, absolutamente nada. Imóveis, as duas continuaram a se imitar.

Depois de um tempo incalculável, de reflexões extensas sobre um programa alimentar de baixo nível calórico e de algumas dancinhas desengonçadas pra animar, que surpresa: voltou a deitar-se. Encontrou-se com o tédio como quem abraça um velho amigo há muito esquecido. E lá permaneceu, como um tesouro de pirata escondido numa ilha secreta.

“Que dia!”, pensou finalmente. E aí adormeceu.


Nessa noite ela sonhou com zebras-unicórnias tomando chá numa mesa redonda. Juro, juro mesmo. Se você vai acreditar ou não, aí já é problema seu. Mas que eu sobe de fontes seguras, ah, isso sim! Pensando bem, a narradora onisciente devo ser eu. 

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