Sentada num pedaço de
mundo que chamava de seu, ela olhava o teto em busca de solução. Mas solução
pra quê, afinal? Sentia sua vida tão terrivelmente líquida e incerta que mal se
atrevia a buscar suas perguntas antes de supor suas respostas. Virava o rosto,
de um lado pro outro, o teto branco a encarava, vazio, denunciando
escandalosamente o seu grotesco estado mental.
Nesse dia,
especificamente, ela tentou fazer várias coisas. De passear com o cachorro a
organizar a coleção de CD’s da sala de estar. Pegou o telefone, discou alguns
números... mas desligou antes do primeiro toque todas as vezes. Apelou para os
afazeres domésticos mais corriqueiros.
No fim das contas, já
havia levantado cansada. E cansada mesmo, seguiu impune pela rotina de todo
dia, como o fazem todas as pessoas da terra. Ela pensou: “Devo ser como todo
mundo”.
Ah, como se sentia
incompleta. Um perfeito retrato da sua conta bancária, diria o narrador
onisciente – diria isso porque a conta bancaria daquela garota andava em franco
declínio, pra não dizer no vazio absoluto.
Depois de deitar-se pela
milésima vez num dia só, resolveu levantar, tomar outro banho, vestir uma roupa
legal. Mas levantada, como estava, olhou no espelho e já quase não reconheceu a
garota de olhos pesados e negros que lhe devolvia o reflexo. Esperou que a
garota do espelho lhe presenteasse com um enigma digno do mundo da tal de Sofia “Eu
sou você!”. Mas nada aconteceu, juro, absolutamente nada. Imóveis, as duas
continuaram a se imitar.
Depois de um tempo
incalculável, de reflexões extensas sobre um programa alimentar de baixo nível
calórico e de algumas dancinhas desengonçadas pra animar, que surpresa: voltou
a deitar-se. Encontrou-se com o tédio como quem abraça um velho amigo há muito
esquecido. E lá permaneceu, como um tesouro de pirata escondido numa ilha
secreta.
“Que dia!”, pensou
finalmente. E aí adormeceu.
Nessa noite ela sonhou com
zebras-unicórnias tomando chá numa mesa redonda. Juro, juro mesmo. Se você vai
acreditar ou não, aí já é problema seu. Mas que eu sobe de fontes seguras, ah,
isso sim! Pensando bem, a narradora onisciente devo ser eu.
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