Dizem que os dias duram 24
horas. Me pergunto se é sempre assim... meus relógios afirmam categoricamente
que sim, como velhos retrógrados e caducos, apegados demais a velhas opiniões.
Meus olhos cansados discordam em todos os sentidos, gritando com as pestanas
desalinhadas que hoje só eu vivi 50 anos.
Não sei se é comum as
pessoas se sentirem assim. Mas sei que tendemos, por algum motivo, a nos
esquecer da dor recém-vivida. Cada solidão é a primeira, é a pior, cada cansaço
é incapacitante como nunca. Mal sabemos que, no fundo, estamos tão cansados
quanto ontem e a única diferença é que já se passaram 50 anos desde a noite
passada.
A vida é mesmo um vaivém.
Não de uma forma legal, como o vaivém de quadris onde o Cazuza procurava vaga,
uma aqui outra ali. A vida muda o tempo todo, e as vezes, sem encontrar muito
sentido em nada disso, só podemos concluir que tudo isso é mesmo muito chato.
Nós vamos e voltamos. Nós
mudamos, todo dia.
Nos dias comuns não
notamos, só nos adaptamos como os pássaros e seus bicos coloridos de Darwin.
Mas nos dias em que isso é praticamente palpável, a alternativa que nos resta é
nos assustar com a inflexibilidade nos nossos músculos faciais e com os anos
que se acrescentam a nossos olhos cansados. A vida dura mais do que ela mesma,
e isso é difícil de entender.
A vida só dura porque é
dura.
Quando começamos a nos
acostumar com determinada situação, jogamos os dados e perdemos. Perdemos pra
quem? Não posso responder essa pergunta e, aliás, nem acredito que seja cabível
dar a ela uma resposta. Mas o fato é que se a vida muda, nós mudamos com ela,
quase sempre contra a nossa vontade.
Sinto que começo a
entender o significado de “os cuidados do mundo”. É aquela ligação que você tem
que fazer, os e-mails desesperados que precisa mandar, aquela roupa que caiu o
botão, meu Deus, daqui a pouco tenho a reunião e tinha esquecido. Droga, a
roupa! Ficou no varal! É difícil... e todos passamos por isso. Mil vezes, todo
dia. A questão é que esquecemos, acostumados que estamos a não perceber. Só
percebemos quando o dia dura 50 anos.
Nesses dias, buscamos
desesperadamente uma fagulha de conforto, sonhamos acordados com o colo da vovó,
que já não mora neste mundo, extrapolamos limites pedindo abraços emprestados.
Procuramos ilhas, ilhas de sentir-se bem.
Mas se há alguma função
positiva da tristeza, essa seria, sem dúvidas, valorizar quem nos conforta.
Fato é que no meio do caos
nem tudo é desespero, de fato. Em 50 anos a vida nos surpreende bastante, com
seus azuis celestes e sorrisos de brinde. Igual comer sem vontade e ganhar duas
mariolas de goiaba no final.
Talvez devêssemos nos ater
mais nas partes boas, nas janelas. Com alguns abracinhos por ai, algumas
mariolas a mais, acho que 50 anos não são assim tão ruins.

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