terça-feira, 22 de outubro de 2013

Abraço Emprestado



Dizem que os dias duram 24 horas. Me pergunto se é sempre assim... meus relógios afirmam categoricamente que sim, como velhos retrógrados e caducos, apegados demais a velhas opiniões. Meus olhos cansados discordam em todos os sentidos, gritando com as pestanas desalinhadas que hoje só eu vivi 50 anos.

Não sei se é comum as pessoas se sentirem assim. Mas sei que tendemos, por algum motivo, a nos esquecer da dor recém-vivida. Cada solidão é a primeira, é a pior, cada cansaço é incapacitante como nunca. Mal sabemos que, no fundo, estamos tão cansados quanto ontem e a única diferença é que já se passaram 50 anos desde a noite passada.

A vida é mesmo um vaivém. Não de uma forma legal, como o vaivém de quadris onde o Cazuza procurava vaga, uma aqui outra ali. A vida muda o tempo todo, e as vezes, sem encontrar muito sentido em nada disso, só podemos concluir que tudo isso é mesmo muito chato.

Nós vamos e voltamos. Nós mudamos, todo dia.


Nos dias comuns não notamos, só nos adaptamos como os pássaros e seus bicos coloridos de Darwin. Mas nos dias em que isso é praticamente palpável, a alternativa que nos resta é nos assustar com a inflexibilidade nos nossos músculos faciais e com os anos que se acrescentam a nossos olhos cansados. A vida dura mais do que ela mesma, e isso é difícil de entender.

A vida só dura porque é dura.

Quando começamos a nos acostumar com determinada situação, jogamos os dados e perdemos. Perdemos pra quem? Não posso responder essa pergunta e, aliás, nem acredito que seja cabível dar a ela uma resposta. Mas o fato é que se a vida muda, nós mudamos com ela, quase sempre contra a nossa vontade.

Sinto que começo a entender o significado de “os cuidados do mundo”. É aquela ligação que você tem que fazer, os e-mails desesperados que precisa mandar, aquela roupa que caiu o botão, meu Deus, daqui a pouco tenho a reunião e tinha esquecido. Droga, a roupa! Ficou no varal! É difícil... e todos passamos por isso. Mil vezes, todo dia. A questão é que esquecemos, acostumados que estamos a não perceber. Só percebemos quando o dia dura 50 anos.

Nesses dias, buscamos desesperadamente uma fagulha de conforto, sonhamos acordados com o colo da vovó, que já não mora neste mundo, extrapolamos limites pedindo abraços emprestados. Procuramos ilhas, ilhas de sentir-se bem.

Mas se há alguma função positiva da tristeza, essa seria, sem dúvidas, valorizar quem nos conforta.

Fato é que no meio do caos nem tudo é desespero, de fato. Em 50 anos a vida nos surpreende bastante, com seus azuis celestes e sorrisos de brinde. Igual comer sem vontade e ganhar duas mariolas de goiaba no final.

Talvez devêssemos nos ater mais nas partes boas, nas janelas. Com alguns abracinhos por ai, algumas mariolas a mais, acho que 50 anos não são assim tão ruins.


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