Há alguns dias, tive a oportunidade de ler uma reportagem
muito corajosa sobre pais (mais corajosos ainda, diga-se de passagem) que
através de um canal, puderam compartilhar sobre um sentimento incômodo e
socialmente não aceito: o arrependimento de terem se tornado pais. O relato
dessas pessoas tem um ponto em comum: eles amam os filhos. Sim, eles amam.
Entretanto, a tarefa social de ser pai ou mãe lhes é bastante ardilosa, tal
qual aquele emprego que você não aguenta mais, mas não pode se dar ao luxo de
sair pois o sustento depende dele? Pois é. É dessa mesma forma que esses pais
se sentem.
Mas, então, o que os levou a terem filhos? Essa pergunta me
saltou aos olhos quase imediatamente. Alguns deles relatam que foi por puro
descuido, alguns porque foram convencidos e alguns acreditavam que queriam
filhos, pois isso faz parte do desenvolvimento enquanto ser humano, sabe,
aquela velha história do “nasce, cresce, reproduz e morre”. Fiquei parada
alguns minutos em frente ao computador em um misto de espanto com a sinceridade
e tristeza por existir uma parcela (que é mais frequente que você imagina) de
pais que simplesmente odeiam estar desempenhando essa função e por pensar na
angústia que é estar nesta posição, uma vez que, vejam bem, não são pais que
não aguentam a carga e simplesmente somem...se trata de pais que assumiram a responsabilidade,
mas odeiam.
Contudo, o que me fez querer falar sobre o assunto, foi
pensar que muitos deles não tinham
vontade alguma de serem pais. E eles falam sobre isso.
Agora, falando especificamente da mulher , que carrega desde
sempre um ventre e é acompanhada de um discurso de “por ser mulher tem que ser
mãe”: você
não tem. Só que, infelizmente, é essa premissa que ainda faz parte do
imaginário feminino... assumir para si mesma e para a sociedade que você,
apesar de ter recebido “a dádiva de Deus” de ter um útero, ter um período
fértil todo mês, ter seu organismo preparado para conceber uma criança, você
não quer ser responsável por alguém pelo resto da sua vida, é simplesmente
inadmissível. É negar sua natureza, é negar o curso natural da vida... agora, a
questão: negar sua natureza ou se arrepender pelo resto da vida? Pior, se arrepender
e o fruto desse arrependimento depender de você por uns boooons anos?
Para não ter risco de ser interpretada de forma errada (o
que inevitavelmente vai acontecer uma hora ou outra), não estou lançando a
discussão de interromper ou não uma gravidez, por exemplo. A questão levantada
aqui é o tabu acerca do “ser ou não ser mãe”. Aliás, do QUERER ser mãe ou não.
Eu, particularmente, nunca desejei ser mãe, mas também nunca
falei a respeito. Sempre me senti muito culpada por negar a minha incapacidade
de desejar um filho, por não demonstrar o mínimo interesse em ter uma criança
pra mim e sempre me consolei no discurso de outras mães (inclusive na minha) de
que essa forma de pensar mudaria a partir do momento que eu engravidasse, que
pegasse o filho no colo. Outro discurso particularmente atraente é o de ter
filhos para não sentir a solidão na velhice...
Bem, alguns anos de análise depois, consigo sentir menos
culpa ao pensar que não quero, ainda, me responsabilizar por alguém. Sou taxada
de egoísta algumas (das poucas) vezes em que verbalizo esse não-desejo, o que
já não me gera nenhum desconforto pois tanto querer como não querer ter um
filho são atos egoístas... (mas essa é outra discussão). O fato é que, não
discutir essas questões ou não querer pensar em questões do tipo não trazem
esclarecimento algum. Traz apenas pais frustrados por não conseguirem lidar com
o rojão que lhes foi “dado pela natureza”. Me dói muito pensar que, pra “seguir
um curso da natureza” ou “para não ficar sozinha na velhice” uma pessoa tenha
que sofrer porque eu não consegui suportar a função “mãe”.
Então, meu filho, talvez o meu maior ato de amor para você,
neste momento, seja assumir para mim mesma que eu não desejo tê-lo.
Mariana Pedrosa
Mariana Pedrosa

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