Quando eu era mais nova, especialmente na adolescência, eu andava como um menino, falava como um menino, me vestia como um menino.
Até pouco tempo eu não entendia o porquê disso, mas esses
dias estive refletindo sobre muitas coisas e eis que me deparei com a grande
questão que estava enterrada e eu já nem lembrava mais.
Quando os primeiros sinais da puberdade apareceram eu me
desesperei. Não queria seios, menstruação, cólicas, curvas, tampouco pelos em
todos os cantos. Eu gostava muito de brincar correndo e subindo em arvores,
brincava de queimado e rouba bandeira e eu achava que assim que eu
"virasse mocinha" isso seria tirado de mim.
De algum modo estava na minha cabeça que quando a gente vai
crescendo os gêneros devem se separar, então, eu já não poderia brincar como ou
com meninos e eu não queria isso.
Mas a adolescência chegou e meu corpo inevitavelmente
mudou. E eu morria de vergonha disso, eu não queria que os meninos vissem isso
porque eu sabia, de alguma forma, que eles iam "tomar gosto" comigo.
O que eu fiz? Cobri meu corpo.
Eu preferia camisas folgada pra não mostrar os seios,
preferia bermudões pra não mostrar as pernas, meu dialeto virou o dialeto dos
manos, porque se eles me vissem como um menino eles não ousariam fazer fiu fiu
quando eu passasse.
Eu me enganei.
Mesmo com todo o jeito molecote eu passava na rua e ouvia
vários impropérios e mais, eram de garotos mais ou menos da minha idade. E eu
sempre achava que a culpa era minha! Nas raras vezes em que eu punha um short e
ouvia fiu fiu eu queria correr pra casa e por uma bermuda, pois eu achava que a
culpa era minha.
Hoje, apos refletir sobre esse momento do meu passado, eu
vejo que de bermudão ou shortinho, eu não escaparia do assedio. Os meninos
iriam assoviar na rua porque eles aprenderam que isso é certo e eu iria me
culpar porque aprendi que é culpa da mulher. Olha a merda!
Esta no imaginário popular que mulheres gostam de assovios
e cantadinhas, que isso é fazer com que ela se sinta desejada. É mentira,
gente! Pelo menos pra mim.
Sempre que vejo grupo de homens e eu tenho que passar por
eles eu estremeço, eu sinto receio do que eu posso ouvir e mais, tenho raiva
porque não vou poder fazer nada.
Menina, mulher, moça, a culpa nunca é sua. Essa frase já ta
batida, mas hoje faz mais sentido pra mim por essas lembranças que tive da
minha adolescência e pelas consequências disso no meu presente.
Homens, por favor, parem de assoviar ou falar piadocas e
frases ridículas quando mulheres passam. A gente sente tanto medo e tanta raiva
que vocês não podem imaginar. Apenas parem.
Pais, eduquem seus garotos para que respeitem a todos,
inclusive as mulheres, ensinem a eles o que é elogio e o que é babaquice. E
ensinem suas meninas que a culpa jamais será delas, que elas são livres pra
vestir o que quiserem e isso não vai fazê-la culpada de nada.
Vamos tentar tornar o mundo um lugar mais habitável. Ainda
tem jeito, é so acreditar!
P.S.: De forma alguma estou generalizando, convivo com homens incríveis que tem lutado dia a dia contra seus próprios preconceitos e tentando ser alguém melhor. Então, sem mimimi.
Enezita Vieira.

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