sábado, 23 de janeiro de 2016

Por mais dias sem culpa ou Eu não quero ser mãe.



Há alguns dias, tive a oportunidade de ler uma reportagem muito corajosa sobre pais (mais corajosos ainda, diga-se de passagem) que através de um canal, puderam  compartilhar sobre um sentimento incômodo e socialmente não aceito: o arrependimento de terem se tornado pais. O relato dessas pessoas tem um ponto em comum: eles amam os filhos. Sim, eles amam. Entretanto, a tarefa social de ser pai ou mãe lhes é bastante ardilosa, tal qual aquele emprego que você não aguenta mais, mas não pode se dar ao luxo de sair pois o sustento depende dele? Pois é. É dessa mesma forma que esses pais se sentem.
Mas, então, o que os levou a terem filhos? Essa pergunta me saltou aos olhos quase imediatamente. Alguns deles relatam que foi por puro descuido, alguns porque foram convencidos e alguns acreditavam que queriam filhos, pois isso faz parte do desenvolvimento enquanto ser humano, sabe, aquela velha história do “nasce, cresce, reproduz e morre”. Fiquei parada alguns minutos em frente ao computador em um misto de espanto com a sinceridade e tristeza por existir uma parcela (que é mais frequente que você imagina) de pais que simplesmente odeiam estar desempenhando essa função e por pensar na angústia que é estar nesta posição, uma vez que, vejam bem, não são pais que não aguentam a carga e simplesmente somem...se trata de pais que assumiram a responsabilidade, mas odeiam.
Contudo, o que me fez querer falar sobre o assunto, foi pensar que muitos deles não  tinham vontade alguma de serem pais. E eles falam sobre isso.
Agora, falando especificamente da mulher , que carrega desde sempre um ventre e é acompanhada de um discurso de “por ser mulher tem que ser mãe”: você
não tem. Só que, infelizmente, é essa premissa que ainda faz parte do imaginário feminino... assumir para si mesma e para a sociedade que você, apesar de ter recebido “a dádiva de Deus” de ter um útero, ter um período fértil todo mês, ter seu organismo preparado para conceber uma criança, você não quer ser responsável por alguém pelo resto da sua vida, é simplesmente inadmissível. É negar sua natureza, é negar o curso natural da vida... agora, a questão: negar sua natureza ou se arrepender pelo resto da vida? Pior, se arrepender e o fruto desse arrependimento depender de você por uns boooons anos?
Para não ter risco de ser interpretada de forma errada (o que inevitavelmente vai acontecer uma hora ou outra), não estou lançando a discussão de interromper ou não uma gravidez, por exemplo. A questão levantada aqui é o tabu acerca do “ser ou não ser mãe”. Aliás, do QUERER ser mãe ou não.
Eu, particularmente, nunca desejei ser mãe, mas também nunca falei a respeito. Sempre me senti muito culpada por negar a minha incapacidade de desejar um filho, por não demonstrar o mínimo interesse em ter uma criança pra mim e sempre me consolei no discurso de outras mães (inclusive na minha) de que essa forma de pensar mudaria a partir do momento que eu engravidasse, que pegasse o filho no colo. Outro discurso particularmente atraente é o de ter filhos para não sentir a solidão na velhice...
Bem, alguns anos de análise depois, consigo sentir menos culpa ao pensar que não quero, ainda, me responsabilizar por alguém. Sou taxada de egoísta algumas (das poucas) vezes em que verbalizo esse não-desejo, o que já não me gera nenhum desconforto pois tanto querer como não querer ter um filho são atos egoístas... (mas essa é outra discussão). O fato é que, não discutir essas questões ou não querer pensar em questões do tipo não trazem esclarecimento algum. Traz apenas pais frustrados por não conseguirem lidar com o rojão que lhes foi “dado pela natureza”. Me dói muito pensar que, pra “seguir um curso da natureza” ou “para não ficar sozinha na velhice” uma pessoa tenha que sofrer porque eu não consegui suportar a função “mãe”.
Então, meu filho, talvez o meu maior ato de amor para você, neste momento, seja assumir para mim mesma que eu não desejo tê-lo.

Mariana Pedrosa


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O primeiro assédio.


Quando eu era mais nova, especialmente na adolescência, eu andava como um menino, falava como um menino, me vestia como um menino.
Até pouco tempo eu não entendia o porquê disso, mas esses dias estive refletindo sobre muitas coisas e eis que me deparei com a grande questão que estava enterrada e eu já nem lembrava mais.
Quando os primeiros sinais da puberdade apareceram eu me desesperei. Não queria seios, menstruação, cólicas, curvas, tampouco pelos em todos os cantos. Eu gostava muito de brincar correndo e subindo em arvores, brincava de queimado e rouba bandeira e eu achava que assim que eu "virasse mocinha" isso seria tirado de mim.
De algum modo estava na minha cabeça que quando a gente vai crescendo os gêneros devem se separar, então, eu já não poderia brincar como ou com meninos e eu não queria isso.
Mas a adolescência chegou e meu corpo inevitavelmente mudou. E eu morria de vergonha disso, eu não queria que os meninos vissem isso porque eu sabia, de alguma forma, que eles iam "tomar gosto" comigo. O que eu fiz? Cobri meu corpo.
Eu preferia camisas folgada pra não mostrar os seios, preferia bermudões pra não mostrar as pernas, meu dialeto virou o dialeto dos manos, porque se eles me vissem como um menino eles não ousariam fazer fiu fiu quando eu passasse.
Eu me enganei.
Mesmo com todo o jeito molecote eu passava na rua e ouvia vários impropérios e mais, eram de garotos mais ou menos da minha idade. E eu sempre achava que a culpa era minha! Nas raras vezes em que eu punha um short e ouvia fiu fiu eu queria correr pra casa e por uma bermuda, pois eu achava que a culpa era minha.
Hoje, apos refletir sobre esse momento do meu passado, eu vejo que de bermudão ou shortinho, eu não escaparia do assedio. Os meninos iriam assoviar na rua porque eles aprenderam que isso é certo e eu iria me culpar porque aprendi que é culpa da mulher. Olha a merda!
Esta no imaginário popular que mulheres gostam de assovios e cantadinhas, que isso é fazer com que ela se sinta desejada. É mentira, gente! Pelo menos pra mim.
Sempre que vejo grupo de homens e eu tenho que passar por eles eu estremeço, eu sinto receio do que eu posso ouvir e mais, tenho raiva porque não vou poder fazer nada.
Menina, mulher, moça, a culpa nunca é sua. Essa frase já ta batida, mas hoje faz mais sentido pra mim por essas lembranças que tive da minha adolescência e pelas consequências disso no meu presente.
Homens, por favor, parem de assoviar ou falar piadocas e frases ridículas quando mulheres passam. A gente sente tanto medo e tanta raiva que vocês não podem imaginar. Apenas parem.
Pais, eduquem seus garotos para que respeitem a todos, inclusive as mulheres, ensinem a eles o que é elogio e o que é babaquice. E ensinem suas meninas que a culpa jamais será delas, que elas são livres pra vestir o que quiserem e isso não vai fazê-la culpada de nada.
Vamos tentar tornar o mundo um lugar mais habitável. Ainda tem jeito, é so acreditar!

P.S.: De forma alguma estou generalizando, convivo com homens incríveis que tem lutado dia a dia contra seus próprios preconceitos e tentando ser alguém melhor. Então, sem mimimi.

Enezita Vieira. 


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Sobre ser aceito do jeito que é



Quando eu era mais nova, especialmente na adolescência (ô fase...), eu andava como um menino, falava como um menino, me vestia como um menino. Eu me sentia mais confortável assim e também porque eu achava que ia evitar assedio dos garotos, mas disso eu vou falar outro dia. 

A minha mãe é uma mulher extremamente feminina, ela é vaidosa com roupas, cabelo e maquiagem, anda sempre arrumada e insiste para que eu e meu irmão andemos do mesmo jeito, tem um bom gosto admirável e eu tenho certeza que ela gostaria muito de ter tido uma filha tão feminina quanto ela. E imagina só a nossa relação quando eu queria camisas e ela queria me comprar tops... 

Acontece que a minha mãe nunca me obrigou a nada. Ela comprava minhas camisas de capuz e meus bermudões, mesmo que ela fizesse uma cara de desaprovação quando eu me arrumava ela tentava disfarçar e me dedicava todo amor do mundo. 

Nesse mesmo período eu tinha muitas crises com relação à minha imagem. Eu me achava baixinha e muito magra, não gostava do tom da minha pele, nem do meu nariz, nem da minha boca, nem dos meus dentes separados ou meus pés grandes demais pro meu corpo e ouvia de diversas bocas que eu era feinha mesmo. E quando eu tava triste com tudo isso, minha mãe virava pra mim e dizia "filha, você é linda! Você é linda assim, do jeitinho que você é!" E isso me dava animo pra continuar encarando as crises da vida. 

Eu também quis ser muitas coisas, inclusive modelo e o que minha mãe fez?! Me inscreveu num curso de modelos. Na época a gente tinha mal o dinheiro da passagem pra ir pra aulas, mas ela fazia uma mágica e me levava mesmo assim. E sabe por que? Porque quando queria ser uma coisa e eu achava que jamais conseguiria minha mãe virava pra mim e me dizia "filha, você pode ser qualquer coisa! Se você quiser, você pode e eu sempre vou apoiar os seus sonhos!" E isso me fazia acreditar numa força que nem eu sabia que tinha. 

Enfim, minha mãe é uma mulher incrível e foi e tem sido a melhor mãe do mundo, servindo sempre de apoio e suporte emocional, além de ser a maior incentivadora dos meus sonhos. 

E esses dias, refletindo sobre tantas coisas que apareceram pra mim, percebi que eu tive a experiência mais maravilhosa que um ser humano pode ter: Eu fui aceita do jeito que eu sou. 

Gente, não existe nada mais maravilhoso do que você ser amado e apoiado simplesmente por você ser quem você é. Não existe nada mais lindo do que ouvir "eu amo você assim, desse jeitinho!" Isso em qualquer área da vida, pra qualquer tipo de relação, mas especialmente no seio familiar, que é onde você dá seus primeiros passos e onde você encontra seus primeiros referenciais. 

Nós costumamos acreditar no que os nossos pais (ou figuras paternas) dizem e isso fica dentro de nós pra sempre. E eu tive o privilégio de acreditar que eu tenho potenciais, que eu sou bonita, que eu posso fazer qualquer coisa, embora um mundo de gente me dissesse o contrário.

No meio disso tudo aprendi, com essa mulher incrível que é a minha mãe, que não existe nada mais importante que aceitar o outro como ele é. Deixar as minhas expectativas de lado e virar pra essa pessoa e dizer "eu aceito e amo você assim, do jeitinho que você é!" 

Hoje eu carrego essa lição valiosíssima pra todo lado! Nem sempre é fácil, mas convido você, pai, mãe, tio, tia, primos, família... Aceitem seus pequenos do jeito que eles são, incentivem os seus sonhos, andem ao lado deles e abram caminhos. Desse modo, eles terão suporte para crescer e vão se tornar adultos fortes emocionalmente e que amam e aceitam também. 

Aceitem também os adultos que chegam na vida de vocês, digam a eles que eles são lindos do jeito deles e que eles podem fazer qualquer coisa. Isso faz muita diferença. 

Enfim, num mundo tão extremista, onde ninguém tem o direito de ser diferente, vamos tornar esse diferente algo especial. 

Lembre-se: NÃO HÁ NADA MAIS MARAVILHOSO DO QUE SER ACEITO DO JEITO QUE É.


Enezita Vieira.