terça-feira, 27 de maio de 2014

Joga na Cara!


Minha analista uma vez me disse que quando queremos conversar, tendemos a procurar certas pessoas que nos digam exatamente o que queremos ouvir. A partir daí, seguimos de caso pensando, fingindo mero acaso ao efetuar a tal da ligação que diz “ei, ta fazendo o que? Vamo sair pra conversar?”. Bem, não posso dizer que seja mentira. Embora não seja uma verdade muito agradável e seja, afinal das contas, uma terrível confissão da nossa natureza duvidosa, devo dizer que hoje mesmo eu já fiz isso três vezes.

Na vida de qualquer pessoa, há muito a se contar. E se essa certa pessoa tem amigos, multiplique esse fato pelo menos por três.

Funciona porque em uma certa medida, todas as pessoas são previsíveis. Depois de um tempo conhecendo o que elas pensam, do que gostam e em que acreditam, você se torna minimamente capaz de ter uma ideia do que eles te diriam se você falasse esta ou aquela coisa. Algumas pessoas apelarão sempre pro mais racional, te dirão pra pensar bem e analisar tudo criticamente. Outros só te abraçarão e dirão que você tem toda razão, mesmo que você tenha ido contar que anda escondendo armamento nuclear no quintal. Outros, ainda, não dirão nada. Os mais chatos dirão “eu te avisei”; mas aqueles que te amam, que te amam mesmo, esses te procurarão quando você, a bem da verdade, nem quer muito conversar e, sem o menor escrúpulo ou frescura, jogarão verdades na sua cara. Porque isso, meus caros, isso é o amor.

O amor tudo crê, tudo suporta, mas esqueceram de nos contar que o amor tudo diz. O amor não se alegra com a injustiça, muito menos com as merdas que você quer esconder embaixo do tapete. O amor te paga um sorvete, diz “não se zangue muito” e depois de um não solicitado ‘más’, te diz clara e pausadamente “você não pode adiar seus problemas pra sempre.”. Amar é isso.

No fim das contas, minha analista estava certa sobre mim. Eu vou procurar pessoas que me digam o que eu quero ouvir. Mas eu também vou ouvir, sem querer, exatamente o que eu preciso. E depois de um abraço apertado, um “calma, se der merda eu to aqui”, se abre a possibilidade diante dos nossos olhos. Tudo por culpa deles que, por mais que não recebam pra nos analisar, vão sempre fazer isso. E farão sem perguntar nossa opinião a respeito. Mais uma vez, porque amar é isso.

Embora nosso ideal de amor seja diretamente derivado das comédias românticas produzidas nos EUA, o amor de verdade, cotidiano, pode muito bem não ser nada agradável. Não no momento em que resolve te dar uma bronca, pelo menos. Mas o melhor disso, apesar de tudo, é que o amor vai continuar ali. Porque o amor de verdade é honesto, demasiado honesto. O amor de verdade não tem frescura. O amor de verdade permanece, mesmo quando temos vontade de mandá-lo tomar bem no meio do olho do c*.

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