Minha
analista uma vez me disse que quando queremos conversar, tendemos a procurar
certas pessoas que nos digam exatamente o que queremos ouvir. A partir daí,
seguimos de caso pensando, fingindo mero acaso ao efetuar a tal da ligação que
diz “ei, ta fazendo o que? Vamo sair pra conversar?”. Bem, não posso dizer que
seja mentira. Embora não seja uma verdade muito agradável e seja, afinal das
contas, uma terrível confissão da nossa natureza duvidosa, devo dizer que hoje
mesmo eu já fiz isso três vezes.
Na
vida de qualquer pessoa, há muito a se contar. E se essa certa pessoa tem
amigos, multiplique esse fato pelo menos por três.
Funciona
porque em uma certa medida, todas as pessoas são previsíveis. Depois de um
tempo conhecendo o que elas pensam, do que gostam e em que acreditam, você se
torna minimamente capaz de ter uma ideia do que eles te diriam se você falasse
esta ou aquela coisa. Algumas pessoas apelarão sempre pro mais racional, te
dirão pra pensar bem e analisar tudo criticamente. Outros só te abraçarão e
dirão que você tem toda razão, mesmo que você tenha ido contar que anda
escondendo armamento nuclear no quintal. Outros, ainda, não dirão nada. Os mais
chatos dirão “eu te avisei”; mas aqueles que te amam, que te amam mesmo, esses
te procurarão quando você, a bem da verdade, nem quer muito conversar e, sem o
menor escrúpulo ou frescura, jogarão verdades na sua cara. Porque isso, meus
caros, isso é o amor.
O
amor tudo crê, tudo suporta, mas esqueceram de nos contar que o amor tudo diz.
O amor não se alegra com a injustiça, muito menos com as merdas que você quer
esconder embaixo do tapete. O amor te paga um sorvete, diz “não se zangue
muito” e depois de um não solicitado ‘más’, te diz clara e pausadamente “você
não pode adiar seus problemas pra sempre.”. Amar é isso.
No
fim das contas, minha analista estava certa sobre mim. Eu vou procurar pessoas
que me digam o que eu quero ouvir. Mas eu também vou ouvir, sem querer,
exatamente o que eu preciso. E depois de um abraço apertado, um “calma, se der
merda eu to aqui”, se abre a possibilidade diante dos nossos olhos. Tudo por
culpa deles que, por mais que não recebam pra nos analisar, vão sempre fazer
isso. E farão sem perguntar nossa opinião a respeito. Mais uma vez, porque amar
é isso.
Embora
nosso ideal de amor seja diretamente derivado das comédias românticas
produzidas nos EUA, o amor de verdade, cotidiano, pode muito bem não ser nada
agradável. Não no momento em que resolve te dar uma bronca, pelo menos. Mas o
melhor disso, apesar de tudo, é que o amor vai continuar ali. Porque o amor de
verdade é honesto, demasiado honesto. O amor de verdade não tem frescura. O
amor de verdade permanece, mesmo quando temos vontade de mandá-lo tomar bem no
meio do olho do c*.
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