domingo, 29 de maio de 2016

Domingo, 18h.

De repente, eu consigo sentir o que um viciado sente. Quer dizer, eu acho que é a mesma sensação de um viciado. Não depois do vício, mas antes. Antes de todo o começo. Antes da primeira cheirada, da primeira fumada, da primeira gozada, do primeiro corte da mutilação. De repente me parece muito claro o por quê das pessoas se viciarem em alguma coisa, em alguém, em algum ato, em algo.
De repente, o teto branco parece me provocar, me fazendo lembrar que é ele o meu companheiro nos últimos tempos e que eu o tem fitato com tanta frequência que já consigo diferenciar os tons de branco que as demãos da tinta mal passada no último natal me deixaram de lembrança.
De repente, todas as minhas experiências parecem que foram apenas tentativas frustradas de crônicas mal escritas por um aluno da 5ª série, que ainda acha muito difícil escrever alguma coisa que tenha início, meio e fim.
De repente tudo parece tão passageiro, insípido, monótono... de repente tudo parece tão deserto, tão sem vida, tão silencioso, apesar do barulho de todos os carros, do som alto e de pessoas gritando por mais uma maldita bola que balança uma maldita rede.
De repente, tudo está em slow motion. Me sinto num filme ucraniano em preto e branco, em pé perto da linha do trem, com minha mala quadrada na mão e meu sobretudo apenas jogado nos ombros, esperando pacientemente o interminável trem passar.
De repente tudo fica assim, em nuances laranja azuladas (ou azul alaranjadas), luz quase baixa, sensação de vazio. Sensação de que tudo perde completamente o sentido, inclusive, tentar encontrar sentido para as coisas parece mais sem sentido ainda. E, de repente, me pego lembrando de uma juventude em que eu sentia demais, tudo...e eu implorava para Deus para que Ele me permitisse sentir menos, para sofrer menos, consequentemente. Parece que Deus ouviu. Nesse exato momento, não sinto absolutamente nada, só um grandessíssimo vazio de merda, um buraco gigante de nadas que tiraram, absolutamente, toda minha vontade, coragem e criatividade de lidar com esse momento.
De repente, um resquício de vida (claramente em desespero). Vida que implora por mais, por experiências, pelo novo. Vida que me faz recordar Alberto Caeiro e sua simplicidade no existir. E me vem à cabeça como um mantra "o único sentido íntimo das coisas é que elas não têm sentido íntimo algum". Ou seja, apenas pare, menina! Pare de se preocupar tanto, pare de esperar tanto, pare de sofrer pelo que existe apenas na sua cabeça. Ligue, mande a mensagem, um sinal de fumaça, aceite um não, uns nãos e siga em frente. Apenas VIVA!

De repente, são 19h.

Mariana Pedrosa

Nenhum comentário: