Se conheceram no Tinder. Ele, à toa, tentando superar o fim
de um relacionamento com bom papo e sexo casual. Ela, de brincadeira com as
amigas, julgando secretamente as pessoas que se expunham àquela clara
manifestação de desespero.
Se curtiram
numa noite de quarta, dia em que nada acontece.
Ele puxou papo. Ao contrário dos outros, não houve um
questionário socioeconômico e demográfico antes de uma conversa realmente interessante ser
travada. Isso fez com que os olhos dela brilhassem e fez com que o sentimento de “mais
do mesmo” desse espaço a sensação de desbravamento do desconhecido.
Conversaram sobre tudo. Riram sobre tudo. Não viram a hora
passar e se despediram na promessa de um novo encontro, mas numa rede social
diferente. Trocaram Whatsapp, um "oi" rápido apenas para que o telefone fosse
gravado.
Os dois dormiram com aquela sensação gostosa no peito,
aquela que só quem tem prazer em descobrir coisas novas sente ao ver um objeto
em potencial.
O dia seguinte começou com um "bom dia" dele para ela. Conversas intensas
sobre vida, morte, carreira, personalidade, literatura e astrologia foram
travadas com muito vigor de ambas as partes: tudo antes do almoço. Ela tinha a
sensação que ele era um livro que precisava ser devorado desesperadamente, para saciar a fúria pela
história do personagem e ansiava, com seus botões, que se tratasse de uma
série de livros tal qual Game of Thrones... interminável. Ele sentia algo parecido,
associado a um esperança intensa de que o sexo fosse tão bom quanto o papo.
“Se não tem Facebook, não é confiável” diziam as amigas.
Ela, então, pediu para que fosse adicionada ao Facebook dele. Ele aceitou. Puderam
conhecer um pouco mais sobre o não dito nas conversas. Ela viu que ele curtia
Bolsonaro. Ele viu que ela ouvia Taylor Swift. Deixaram esses defeitos em
suspensão, por algum tempo.
Continuaram a conversar no mesmo vigor. Ele gostou das
fotografias que ela fazia e a seguiu no Instagram. Ela o seguiu de volta. Ela
percebeu que alguns vídeos dele era feitos no SnapChat. E se tornaram amigos lá, também.
À medida que a intimidade crescia depois das visualizações
no Snap, se sentiram a vontade para uma chamada de vídeo via Skype.
Quando ele curtiu 7 fotos seguidas dela no Instagram, ela
pode estar certa do interesse dele. Trocaram nudes por Direct.
Se conheceram pessoalmente numa quarta, dia em que nada acontece.
Ele trocou o futebol por uma noite de sexo selvagem com a menina do Tinder.
Ela adorou. Ele também. Se encontraram sexualmente por mais duas
semanas.
As postagens dele sobre Bolsonaro ficaram mais frequentes. O
Snaps dela cantando Taylor Swift, também. Ela foi começando a enojar tamanha demonstração de apoio e afeto que ele mostrava ter por aquele político. Ele foi achando que era culto demais para estar com alguém que gostava tanto de cultura pop. Ele foi deixando de dar "bom dia" no whats.
Ela já não curtia as fotos dele no Insta. Ela também deixou, sem perceber, de
citar o @ dele no Twitter. Já não tinham mais Directs com nudes. Nem links no
Face de publicações que lembravam um ao outro.
Ela percebeu o afastamento primeiro. Culpou ele, e somente
ele, é claro. Ele não teve que perceber nada, já que havia feito
propositalmente. “Não estou pronto para outro relacionamento sério nesse
momento” repetia para si mesmo, incansavelmente.
Aos sinais de perda, ela entrou em parafuso. Chateada,
deixou de segui-lo no insta. Ele, respondendo a provocação, desfez a amizade no
SnapChat. Realmente ferida pela intensidade da crueldade dele, o bloqueou no
whats. Aproveitou a onda e deixou de seguí-lo no Twitter.
Mas nenhum dos dois ousou tocar no santo Facebook. Sabiam, os dois, que o Facebook poderia lhes
proporcionar a “inocente” stakeada nos dias em que a maré estivesse seca.
Sabiam que o bate papo daquela rede social poderia ressuscitar um papo
falsamente interessante quando estivessem procurando saciar o carnal. Eles
sabiam. Não admitiam, mas sabiam.
Nenhum contato fora feito depois dessas desfeitas.
Ela jurou para si que nunca mais conheceria ninguém dessa forma, que não valia a pena, até que... "Oh, It's a Macth!!"
Mariana Pedrosa

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