sexta-feira, 29 de abril de 2016

Considerações sobre os Professores Medíocres.

Desde que me lembro meu grande objetivo acadêmico foi entrar na universidade. Minha mãe e família fizeram esforços incontáveis para que meu nome constasse na lista de aprovados da Federal. E assim foi, logo de cara, no primeiro vestibular. 
Entrei na universidade com 17 anos, caloura de curso, caloura na vida. Eu tava ali porque sabia que era pra ta ali, mas pra que era mesmo?!

Fui descobrindo aos poucos.

O sonho estava realizado e logo de cara a gente percebe que passar no vestibular é só o começo de um montão de problemas. 
Hoje eu quero falar de um deles que me incomodou muito: Os professores medíocres. 

Tive o privilegio de ter tido excelentes mestres que não me deixaram sucumbir quando no meio de tantos bons aparecia um meia boca. Não era um professor burro ou despreparado, a maioria das vezes a gente via que ele só tava desinteressado.
Os professores e medíocres chegavam atrasados, liberavam cedo, passavam texto pra ler na sala e "debater" depois, ficavam fuçando no celular enquanto a gente se matava pra apresentar um trabalho decente. As vezes ele faltava um mês inteiro, subestimando nossa inteligência, dando as piores desculpas. Outras vezes eles faziam questão de dizer que a universidade não pagava nem o peeling deles. Bom, foram alguns professores assim e inúmeras situações completamente revoltantes para um aluno que anseia por aprender alguma coisa.
Você deve ta imaginando que ou uma nerd revoltada. Não, não sou. Varias vezes me aproveitei da incompetência desses professores para faltar aquela única aula de sexta ou sair pra jantar no R.U e ficar batendo papo com os colegas, porque era mais produtivo do que voltar pra aula e ver um profissional nada interessado se você ta aprendendo ou não. 
Então isso é responsabilidade minha? 
Sim, mas não exclusivamente. 
Educação é troca. Professor ensina, aluno aprende, vice e versa. Podia me sentir culpada por todas as vezes em que fui tão medíocre quanto esses professores, mas não. 
Não me sinto porque quando era aquele professor que dava aquela puta aula eu saia de casa cedo pra não atrasar, virava a noite estudando pra prova ou tentando dar o meu melhor naquele trabalho valendo 2 pontos; lia os textos com antecedência e ficava com fome pra não correr o risco de voltar atrasada e perder algo da aula. Esses professores valeram a pena, mesmo aqueles com quem eu tinha pouquíssima afinidade com a matéria ensinada, valeu a pena toda cobrança e esforço deles.
Esses últimos de que falei são os que me inspiraram e continuam me inspirando. São aqueles que fazem eu querer ser professora e inspirar alguém um dia. 
Sobre os outros fica meu questionamento: Pra que seguir a docência? Tem coisa melhor a fazer. Lidar com uma sala de aula não deve ser fácil, então pra que escolher uma carreira de ensino se você detesta ensinar.
Esse tipo de atitude é solo fértil para que surjam alunos medíocres e futuros profissionais medíocres, que talvez retornarão à universidade para serem tão medíocres quanto seus professores foram. 
Isso gera uma bola de neve que resulta em pouca produção científica, baixo interesse em grupos de estudo, iniciação cientifica ou extensão. Vemos alunos desmotivados em pesquisar mais e se contentando apenas com o que é oferecido tão porcamente na sala de aula.
Nós entramos na universidade sem saber de nada, é papel do professor mostrar como a coisa toda funciona, se você não tiver interesse pelo que faz, isso vai ser um fardo insuportável.
E eu espero, de coração, que isso mude porque eu sei que é possível. Eu tive professores medíocres, mas eu tive professores que foram maiores que isso, que se comprometeram em transmitir um saber limpo e me ensinaram a pensar alem da caixa.
Nesses que eu me inspiro. Nesses que eu acredito e um desses que eu vou me tornar.

Enezita Vieira.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

It's a Macth!!


Se conheceram no Tinder. Ele, à toa, tentando superar o fim de um relacionamento com bom papo e sexo casual. Ela, de brincadeira com as amigas, julgando secretamente as pessoas que se expunham àquela clara manifestação de desespero.  
Se curtiram numa noite de quarta, dia em que nada acontece.
Ele puxou papo. Ao contrário dos outros, não houve um questionário socioeconômico e demográfico antes de uma conversa realmente interessante ser travada. Isso fez com que os olhos dela brilhassem e fez com que o sentimento de “mais do mesmo” desse espaço a sensação de desbravamento do desconhecido.
Conversaram sobre tudo. Riram sobre tudo. Não viram a hora passar e se despediram na promessa de um novo encontro, mas numa rede social diferente. Trocaram Whatsapp, um "oi" rápido apenas para que o telefone fosse gravado.
Os dois dormiram com aquela sensação gostosa no peito, aquela que só quem tem prazer em descobrir coisas novas sente ao ver um objeto em potencial. 
O dia seguinte começou com um "bom dia" dele para ela. Conversas intensas sobre vida, morte, carreira, personalidade, literatura e astrologia foram travadas com muito vigor de ambas as partes: tudo antes do almoço. Ela tinha a sensação que ele era um livro que precisava ser devorado desesperadamente, para saciar a fúria pela história do personagem e ansiava, com seus botões, que se tratasse de uma série de livros tal qual Game of Thrones... interminável. Ele sentia algo parecido, associado a um esperança intensa de que o sexo fosse tão bom quanto o papo.
“Se não tem Facebook, não é confiável” diziam as amigas. Ela, então, pediu para que fosse adicionada ao Facebook dele. Ele aceitou. Puderam conhecer um pouco mais sobre o não dito nas conversas. Ela viu que ele curtia Bolsonaro. Ele viu que ela ouvia Taylor Swift. Deixaram esses defeitos em suspensão, por algum tempo.
Continuaram a conversar no mesmo vigor. Ele gostou das fotografias que ela fazia e a seguiu no Instagram. Ela o seguiu de volta. Ela percebeu que alguns vídeos dele era feitos no SnapChat. E se tornaram amigos lá, também.
À medida que a intimidade crescia depois das visualizações no Snap, se sentiram a vontade para uma chamada de vídeo via Skype.
Quando ele curtiu 7 fotos seguidas dela no Instagram, ela pode estar certa do interesse dele. Trocaram nudes por Direct.
Se conheceram pessoalmente numa quarta, dia em que nada acontece. Ele trocou o futebol por uma noite de sexo selvagem com a menina do Tinder.
Ela adorou. Ele também. Se encontraram sexualmente por mais duas semanas.
As postagens dele sobre Bolsonaro ficaram mais frequentes. O Snaps dela cantando Taylor Swift, também. Ela foi começando a enojar tamanha demonstração de apoio e afeto que ele mostrava ter por aquele político. Ele foi achando que era culto demais para estar com alguém que gostava tanto de cultura pop. Ele foi deixando de dar "bom dia" no whats. Ela já não curtia as fotos dele no Insta. Ela também deixou, sem perceber, de citar o @ dele no Twitter. Já não tinham mais Directs com nudes. Nem links no Face de publicações que lembravam um ao outro. 
Ela percebeu o afastamento primeiro. Culpou ele, e somente ele, é claro. Ele não teve que perceber nada, já que havia feito propositalmente. “Não estou pronto para outro relacionamento sério nesse momento” repetia para si mesmo, incansavelmente.
Aos sinais de perda, ela entrou em parafuso. Chateada, deixou de segui-lo no insta. Ele, respondendo a provocação, desfez a amizade no SnapChat. Realmente ferida pela intensidade da crueldade dele, o bloqueou no whats. Aproveitou a onda e deixou de seguí-lo no Twitter.
Mas nenhum dos dois ousou tocar no santo Facebook.  Sabiam, os dois, que o Facebook poderia lhes proporcionar a “inocente” stakeada nos dias em que a maré estivesse seca. Sabiam que o bate papo daquela rede social poderia ressuscitar um papo falsamente interessante quando estivessem procurando saciar o carnal. Eles sabiam. Não admitiam, mas sabiam.
Nenhum contato fora feito depois dessas desfeitas.
Ela jurou para si que nunca mais conheceria ninguém dessa forma, que não valia a pena, até que... "Oh, It's a Macth!!"

Mariana Pedrosa