O
amor é um sapato.
Sim,
desses que a gente usa todo dia. E não digo isso como um subterfúgio pra dizer
que eu amo sapatos, seria dolorosamente desnecessário, já que tenho em mim
escancarado o vício por calçados. É só que não é disso que se trata.
O
amor começa sempre de maneira inexplicável. Pra mim isso se dá porque, mesmo
que exista uma explicação, qualquer pessoa de juízo a deixaria de lado em prol
da mágica do não-sei-de-onde-veio-esse-sentimento. É gostoso, afinal de contas,
deixar a cargo do acaso os acontecimentos que nos levam a amar alguém. Por
algum motivo achamos mais bonito que seja assim do que simplesmente dizer que
aconteceu porque, sim, você queria que acontecesse.
Verdade
que às vezes acontece mesmo quando não queremos, mas esse assunto deixarei pra
depois. Hoje o fato é que o amor acontece e, de uma forma ou de outra, ninguém
sabe explicar direitinho como é. É uma dessas coisas que a gente só reconhece
quando sente, aí, juventude, tarde demais pra dar pra trás.
O
amor acontece.
Acontece
como andar em um shopping e olhar ocasionalmente pra uma vitrine. Daí pra
frente, chovem pétalas de flores quando você avista o item em questão. É um
sapato maravilhoso e você começa a imaginar como seria tê-lo. Será que caberia
direito em você? Mas será que combina com suas roupas, com seu estilo? Será que
aquele sapato vai te abandonar e você vai sofrer? Você não sabe. Você talvez
nunca descubra. Na melhor das hipóteses você testa e vê o que acontece.
É que o amor é um sapato.
Eventualmente,
você decide arriscar. Entra na loja, pergunta pela sua pontuação. Às vezes ela
simplesmente não existe e aquele sapato simplesmente não é pra você. Chateada,
desapontada, é hora de seguir em frente e olhar outras vitrines.
Em
outros casos, já com a pontuação correta nos pés também é preciso ter a coragem
de dizer que “é lindo, mas gostei mais dele no seu pé do que no meu”. Sim, é a
mesma lógica da grama: o amor (sapato) do vizinho parece sempre mais bonito, o
que não significa que, de fato, ele sirva pra você.
Mas
em momentos raros e realmente especiais, aquilo que você viu na vitrine é
exatamente o que você vê nos seus pés. Aquela pessoa, bem-dita seja!, é
exatamente como você imaginou que seria. Depois de algumas voltas, nenhum calo.
Depois de um dia inteiro juntos, ele não te cansa e quanto mais o tempo passa,
mais você parece gostar, mais sua vida parece combinar com aquele sapato como
não poderia nunca combinar com nenhum outro.
Como
era de se esperar e como é tudo na vida, depois de um tempo sapatos perdem a
graça. Os menos persistentes desgastam rápido, furam a sola e logo você começa
a reclamar do dinheiro jogado fora. Mas é um risco que se corre, amando ou
comprando sapatos. Você paga pra ter antes de saber se quer ou não continuar
tendo por longos anos.
Às
vezes o preço simplesmente não vale a pena, é hora, então, de, outra vez, tomar
vergonha na cara e continuar a procura pelo par ideal. Talvez ele não exista,
realmente, mas esse é outro risco que se corre.
Eu,
no entanto, acordei esperançosa. Acordei acreditando que vale até a pena
suportar um calo ou outro quando você se apaixona. Vale suportar os anos e o
desconforto do começo quando você finalmente encontra o sapato que queria.
Depois de alguns dias, um pouco de lama e de sol, ou poeira, ou longas
caminhadas, ainda faz sentido olhar pro sapato e gostar dele mesmo assim.
Pra Mariana Pedrosa,
que é igualmente louca por sapatos.
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