sexta-feira, 27 de junho de 2014

Carta aberta ao senhor Fernando Reis

Caro senhor Fernando Reis,

Eu também já não caibo nas roupas que eu cabia, também já não encho minha casa de alegria e, também, fiquei muito espantada quando percebi pelos no meu rosto, sobretudo na região entre o lábio superior e o nariz e eu realmente acho que eu falei o que ninguém ouvia e escutei o que ninguém dizia.

Mas devo discordar com o senhor: Eu TENHO que me adaptar.

Tenho que me adaptar a novos lugares, à novas pessoas (e porque não à velhas pessoas). Preciso me adaptar à novas situações.

Preciso, realmente, me adaptar a esse novo eu que surge a cada dia dando lugar aquele outro eu surrado, sofrido com pedradas.

Tenho que me adaptar a esses 23 anos que já se fazem perceber nas minhas costas.

Tenho que me adaptar à situações que exigem tanto de mim que só me fazem chorar ao final do dia.

Tenho, realmente, que me adaptar à vida adulta e esquecer daquela infância que me foi roubada, não sem meu consentimento.

Eu, sinceramente, acho que os anos se passaram enquanto eu dormia, mas o senhor parou pra pensar que, talvez, nos dormimos demais?? Como haverá adaptação se quando acordamos, queremos lutar pelo direito de permanecer tal qual estávamos antes de dormir?

O senhor não vai se adaptar por que não quer? ou por que tem medo? Eu tenho medo, mas preciso. Durante muito tempo fui tão enfática como o senhor: não vou me adaptar! Sim, a cara no espelho já não é minha, mas o que eu posso fazer?

Isso tudo faz algum sentido para o senhor?

Porque pra mim, não. Essa é só mais uma daquelas coisas que a gente pensa ao final de um dia muito, muito fodido.

De qualquer forma, só queria lhe dizer que é preciso mudar. E se adaptar a essas mudanças. Só que, infelizmente, "mudar" na vida real não é somente se dar conta num minuto e no minuto seguinte andar a passos largos rumo a felicidade, como nas comédias românticas. Mudanças exigem muito. Exigem abrir mão do que não se quer largar, exige ser esquecido por quem se queria bem... exige, no final de tudo, adaptar-se...

Eu estou tentando. Espero que tentes, também.

Com amor, Mariana.

PS: Eu continuo amando sua barba ruiva. Com ou sem adaptação.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A vida. Ah, a vida.

Já perdi as contas de quantas vezes reclamei da vida, com as mãos na cabeça e olhando pra cima. Inúmeras, pra ser precisa, já não sendo. Eu praticamente, quando não literalmente, gritava pra que ela me respondesse por qual motivo ela agia assim, quem tinha sido o escroto que havia lhe feito virar essa entidade tão sem ternura no coração. A vida é uma daquelas mães que não passaram pelo curso de mães. O bom é que ela não tem aquela conhecida fixação com tupperwere, mas em compensação, não faz carinho na sua cabeça quando a merda já está feita. A vida só vai te dizer, dura e seca: "te vira!"

E sabe o que é mais cômico? Quando você respira aliviado, pensando não poder acontecer nada pior, simplesmente acontece. "Vadiaaaa!!!" eu grito em desespero. "Mas não sou eu que estou fodida, queridinha", eis o que ela me responde.
E nossos diálogos consistem nisso. Eu a xingo e ela dá de ombros. Parece que não se importa com o meu esforço, embora eu reconheça que seja insuficiente, às vezes. Não se importa quando é suficiente, nem quando é extraordinário.  
Na verdade, ela não se importa, simplesmente. Ela insiste em não parar, uma semaninha que seja, para que meu sofrimento e falta de encaixe no mundo, pelo menos, se dissipe um pouco. Não! Ela está lá! Firme e forte, tipo aquelas mulheres loiras, ricas, peitudas e bem sucedidas antes dos 30, me olhando com aquele sorrisinho de desdém no rosto, levantando a sobrancelha e pensando: "ainda tá assim? Isso não aconteceu há 30 segundos?" 
Essa é a vida. A minha. De alguma forma,  que eu ainda não aprendi, sou eu quem manda nela. Vou acreditando que, com os tropeços que essa dama me dá, eu vou me reerguendo mais forte, mais sábia. Tendo fé que ela não se chama Miriam.