domingo, 11 de setembro de 2016

"A casa caiu, a festa acabou"

Alice estava ansiosa. Melhor dizendo, ela era ansiosa. Tinha se auto diagnosticado após ler alguns sites na internet que diziam os 10 sintomas mais frequentes em casos de transtornos de ansiedade e se identificou com 11, se contasse o sintoma extra que um "jeff_anonimo" postou ao final da reportagem, na parte de comentários. Mas aquele domingo foi especialmente mais ansioso que todos os outros. Era o 14º filme do Netflix que começava e não conseguia terminar porque na sua mente ressoava a lembrança da ficha caindo. As lembranças, se tivesse que ser sincera.
Foi numa conversa de bar, num começo de noite. Ou pode ter sido no dia anterior. A questão é: existiu. Ninguém mais ouviu aquele barulho, a não ser ela. Foi só uma ficha caindo, mas o estrondo reverberou por todas a extensão de seu corpo. E foi como uma onda (talvez devido ao som se propagar em ondas, segundo o pouco que se lembrava das aulas de física do segundo ano). Começou aos pouquinhos e foi crescendo, crescendo culminando na ponta dos pés e levando embora toda aquela imensidão de cegueira que insistia em tomar conta de suas repetições.
Talvez tenha sido numa terça feira, na hora do banho. O barulho ecoou e fez estremecer. A risada de canto de boca foi inevitável. A ficha caiu e ela se deu conta que tudo ao seu redor não passava de um minúsculo círculo no qual estava presa por vontade própria, mas sem controle algum. Se deu conta de todas as vezes que assistiu ao mesmo filme, que voltou às mesmas músicas de sempre, a mesma leitura por já saber como terminava, das vezes que entrou na série "conhecer - conversar - manter vínculo- foder - cair fora - colocar a culpa nele" que nem percebia mais que assim fazia. Se deu conta que estava no automático a tanto tempo que tudo lá fora pareceu um imenso e desconhecido amontoado de coisas. Não conhecia nada. Ela, simplesmente, não sabia mais nada.
Pobre garota! Acreditou por tanto tempo no cinismo como carro chefe das emoções, no não apego como proteção. Acreditou na descrença da capacidade de ser amada e agora junta os cacos do vidro estraçalhado quando o sentido de ter recebido um "você foi o grande amor da minha vida" bateu a sua porta. Pobre garota! Estava tão cega pela facilidade dos mecanismos de defesa que simplesmente foi deixando a vida passar. Pobre garota que acreditou ter o controle de tudo o tempo todo, esse bendito controle que insistia em querer e se desesperava, bicuda e chorosa tal qual uma menina mimada, toda vez que supostamente o perdia.
Talvez tenha sido no chá da tarde. Talvez tenha sido por algo que o Chapeleiro Maluco falou. A questão era que agora ela estava desperta. E acordar pode ser a coisa mais dolorosa do dia...ou da vida.