Existem poucos prazeres na
vida. Sim, muito poucos. Contados a dedo, pingados a gato, conta gota de café.
Parece triste e sádico
pensar nisso, mas certamente é possível concordar que, quantitativamente, a
maior parte da vida é composta apenas de nada. Talvez seja feita da espera, da
ansiedade das malas prontas, do desespero de achar que TEM que se fazer alguma
coisa. Sempre pensando no futuro, ainda que seja daqui a pouco. Estamos
cansados. Cansados o tempo todo de estarmos adiante, acabando por não estar em
lugar nenhum.
A maior parte da vida é
montada no sentimento de que estamos esperando alguma coisa. E estamos mesmo,
apesar de que a maioria das pessoas mal sabe disso.
Mas sim, existem poucos
prazeres na vida. E há que se pensar que é bem mais legal ser feliz
acompanhado. Um amigo, um amor, uma verdade a que se apegar, um colo pra
deitar. Isso faz parte, mas não é bem disso que se trata. Não hoje.
Hoje a felicidade resolveu me aparecer como o
brilho do sol refletido na poeira. O brilho que só eu notei, porque só eu
estava olhando. Há muita metafísica em se pensar em nada, me disse Pessoa. Eu
diria também que há muita metafísica em ficar sozinho. Sentada num saguão
poeirento de um aeroporto no meio do caminho, malas aos pés, livros à mão, me
dei conta de que, como um susto, estava rindo para o meu café. Me surpreendi
feliz e suja de creme, como num conto infantil.
Sorri porque havia me dado
conta de que um dos poucos e pequenos prazeres da vida consiste em simplesmente
estar. Estar onde estamos, ser o que somos, ler o que queremos.
Sentada, sozinha,
digitando em um celular (coisa da qual, aliás, nem gosto). Estive feliz apenas
porque estava lá. Estava sentada. Estava sozinha e estava digitando no celular.
Doce ironia! Quase tão doce quanto o creme no canto da minha boca. Doce como
voltar pra casa.
Li em uma placa que
"A Felicidade é Um Sorvete". Achei maravilhoso. Agora aqui, sentada,
sozinha, digitando, decidi: se a felicidade é um sorvete, vou estar feliz antes
que derreta.
Especialmente dedicado ao meu amigo
Bruno Leonardo,
que compartilha minhas ideias sobre a
Felicidade
